Você obedece a inscrição e come o bolo exposto na vitrine; a partir daí, viaja no soft porn de Amsterdã
Por Janaina Cavalli
Alguém aí já viu a versão soft porn de Branca de Neve? Eu vi, quando era criança. Passou no SBT.
Pois bem, quando estive em Amsterdã, no ano passado, fiquei pensando que a cidade serviria de cenário para o soft porn de outra história: Alice no País das Maravilhas. Quer ver como? Ande à beira dos canais, a passos lentos no ritmo dos turistas, ao som das buzinas – “trim-trim” – das bicicletas, sinta o sol na cabeça, vire a rosto para os lados de vez em quando, inesperadamente. Voilà. Alices crescidinhas despontarão de um túnel escuro e fundo, de onde um dia chegaram em vagarosa queda. Elas vão tatear a janela de vidro, olhar para você no lado de fora - sem te ver - e automaticamente te convidar a entrar no túnel com elas, como aprenderam com o coelho.
Talvez você se dê conta de que tudo começou em um dos coffee shops da cidade; você entrou para tomar um café e percebeu, sem querer, exposto na vitrine de doces um bolo com uma linda inscrição que dizia: "COMA-ME". Bem, você obedeceu. E então já não era mais a mesma. “Curiosíssimo!”, você deve ter pensado.
A partir daí sua sensibilidade para perceber as semelhanças entre a cidade e o soft porn de Alice ficou certamente mais aguçada. De repente você não entende de onde surgiram tantos pintos (de plástico, necessário dizer), de cores tão variadas, e também de tamanhos e formatos diversos. Até os mastros que separam o caminho dos pedestres dos das bicicletas se pareciam com pintos! “É isso mesmo que eu tô vendo?”
Amsterdã consegue abrigar, em um mesmo enquadramento, prostitutas, mictórios a céu aberto e cisnes. E antes de sentir que as coisas estão no lugar errado, você percebe: "Tanto faz, hoje tudo está estranho mesmo, desde que acordei". E se perde. A cidade, então, te proporciona estar em um bar escuro – num domingo ensolarado à tarde – assistindo a um extasiante grupo de jazz, e permitindo-se ser um outsider: as pessoas naquele bar tem mais de 50 anos, algumas mais de 70; e estão lá flertando, namorando...
Tive a impressão, a última impressão, talvez, de que faz mais sentido admitir Amsterdã como uma história (picante e nonsense) do que vida real. No pacote de emoções que eu trouxe de lá o que ficou do Red Light District foi a seguinte lembrança: manequins úmidas e vermelhas, sentadas à janela de quartinhos pertencentes à outra época. Uma caixa de vidro emoldurava seus rostos. Quando quisessem se fechar em seus mundos reais, tampariam a caixa. Estranhamente, eram caixas de vidro iguais as que expunham comida quente à venda nas ruas da cidade, tão tipicamente holandesas...*
As prostitutas de Amsterdã, definitivamente, se chamavam Alice.
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*A cena descrita é uma percepção da instalação The Hoerengracht (O Canal das Prostitutas), dos artistas Ed and Nancy Kienholz's, exposta na National Gallery, Londres, de novembro de 2009 a fevereiro de 2010. O vídeo traz uma entrevista com Nancy Kienholz e uma volta pela instalação. Durante as imagens da obra, preste atenção na música, que é o som ambiente nos quartos do Red Light District recriado pelos artistas.
http://www.youtube.com/watch?v=AbSpPOeeuyA
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