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CRESCER MENINA

CRESCER MENINA


Na cidadezinha do interior, papéis bem delimitados, homens podem isso, mulheres não podem aquilo





Por Daniela Cucolicchio


Na cidadezinha em que cresci, Infância, primeiro volume da trilogia autobiográfica de Górki, está esquecido sobre a escrivaninha desde que cheguei, há 15 dias, para passar um tempo na casa da mãe. Aqui as linhas do livro não precisam de páginas, estão na rua, espalhadas pelos lugares e pessoas que fizeram parte da minha infância e adolescência.

Tem a vó e o vô, pais do pai, e a casa deles, enorme, ainda insuficiente para acolher os sete filhos, 18 netos, um bisneto (outro na barriga) e agregados, que se juntam para as festas de fim de ano, bodas, aniversários. Tem a tia, irmã da mãe, e as duas primas; da mais nova troquei fraldas. Tem a casa em que vivi durante 11 anos; quintal de terra, bom pros vários gatos e cachorros que tive, hoje toda reformada – grades nas janelas, muro alto, interfone no lugar da campainha que nunca funcionou.

Tem a escola, única particular da cidade, onde estudei dos cinco aos 14; o mesmo pátio de cimento liso, as mesmas salas de aula, umas de chão vermelho, outras de madeira carcomida, as mesmas carteiras azuis, algumas marrom, os mesmos professores, com exceção de um ou outro, o mesmo casal de serventes, a mesma inspetora. Tem a praça dos pipoqueiros e das paqueras, a igreja matriz das missas obrigadas, o salão paroquial dos encontros de jovens – quase toda a vida social dependia da participação nos grupos de jovens da igreja católica.

Tem, por entre as lembranças, o peso de crescer menina numa cidadezinha do interior paulista. Na maioria das cenas p&b aqui rodadas agora pela memória, as meninas aparecem grifadas de rosa, e os meninos de azul; os papéis sempre bem delimitados, definições extracorporais do que pode quem tem pipi, do que não pode quem tem xoxota.

Netas virgens

Menina tem que usar saia, menina tem que ter modos, não pode mostrar a calcinha. Minha mãe me obrigava a usar saias, eu odiava. Como brincar, correr, cair, subir em árvore, usando saia (algumas nem esticavam!) e sem deixar a calcinha aparecer? Menina não pode sentar largada, de pernas abertas, coisa feia, isso é coisa de menino, menina não fala palavrão, dizia a professora de português.

Isso é brinquedo de menino, aquilo de menina. Então eu tinha pipi! Apesar do quarto cheio de brinquedos cor-de-rosa, gostava da fazendinha, do videogame, dos bonecos Power Rangers, dos jogos, dos patins, das brincadeiras de rua, coisas ou unissex ou mais ligadas aos meninos.

Menina tem que ajudar nos afazeres domésticos, tem que aprender a bordar. Na casa dos avós, até hoje só as mulheres tiram a mesa, só mulheres fazem o kit limpa-lava-passa-cozinha, clássico. Mulher não bebe, só pode um pouquinho. Os primos ficam alegres e sorridentes, andando torto; o avô acha bonito, os demais não ligam. As primas... Se beber, disfarce muito bem; todos se sentirão incomodados com uma senhorita bêbada numa reunião familiar.

As namoradas dos primos são sempre paparicadas pelo avô, os namorados... Eu nunca quis apresentar nenhum pra ele. As netas casam virgem. Não sei se meus avós realmente acreditam nisso, mas demonstram que sim. Menina tem que se dar o respeito, tem que se preservar, menina virgem que beija muitos é putinha, mocinha que gosta de sexo é biscate, diz o imaginário popular da cidade.

Quando tinha 14 anos e comecei a namorar um cara de 19, minha mãe – vista como superliberal pelas minhas amigas – usou de todas as táticas possíveis para tentar embalsamar meu hímem. Em meio a muitas brigas, conseguiu me manter virgem por mais dois anos. Não sei se eu teria dado, se ela não estivesse querendo escolher quando e com quem seria minha primeira vez. Dar foi uma forma de dizer que meu corpo pertence a mim.

Quando tinha dez, convicta do meu desejo, disse a um amigo de colégio: queria ter nascido homem. Ser menina pesava muito. Hoje, com 24 anos e há oito longe da cidadezinha, não quero mais ser homem. Aprendi que se pode recusar papéis impostos, e ignorar olhares desgostosos quando me aproximo mais do dito universo masculino do que do feminino. Aprendi que se pode fazer tudo isso sem deixar de ser menina. Como diria o poeta, aprendi que tem beleza na tristeza de se saber mulher. Hoje ser menina pesa só um pouquinho.

Comentários  

 
0 #5 Fabiana 07-12-2011 15:42
Nossa lembra e muito as reuniões da minha família de todo o ano shuashshu
Minha vó que já é falecida,achava que todo mundo que não morava na cidade dela oferecia perigo pros netos...
Quando me mudei pra Floripa pra fazer faculdade, a maioria das minhas tias vieram conversar cmg, dizendo pra eu n usar drogas nem beber em copo de estranho hsaushhasshau
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-2 #4 dilma 07-12-2011 11:25
Graças a Deus sou uma mulher com raízes interioranas. Por isso, não pago calcinha, não dou vexame e sei com quem fui para a cama no dia seguinte, ao contrário do que se pensa, mulheres do interior, sabem dizer não a um homem, pois se dão o devido respeito por suas preferências, isentas de interesse. Portanto, acho que todas a mulheres ditas modernas e da cidade grande, deveriam fazer um estágio no interior e ver que suas atitudes são ridículas perante a vida, as pessoas e aos homens. Isso está longe de ser uma mulher da cidade. Se eles foram criados de maneira diferente, o problema e deles. O nosso, é sermos mulheres de bom senso. E viva a roça, as festas de igreja onde flertavamos bastante antes da aproximação, as missas que so ensinam coisas boas e nos puxam para a realidade e claro a família buscápé. kkkkkkkk
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0 #3 Luna 19-04-2011 00:11
Nossa, lembrei da minha infancia agora!!! Nostalgia.
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+2 #2 Marco Aurélio 11-11-2010 16:12
Olá, vc escreve muito bem... estou emocionado. Meu avô está mal, sinto saudades do interior e de tudo que ele me representava.
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+3 #1 Ana Paula 10-11-2010 12:45
Adorei, lembra a imagem da minha cidadezinha no interior do paraná, bacana o modo como descreveu e me identifiquei com o texto! beijo!
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