"Por dentro, fico gaga quando estou eufórica e minhas mãos se agitam como as do Chaves empolgado"

Por Daniela Cucolicchio
02/09/11
Apoteose de um dia chuvoso. De semanas chuvosas. De mar caindo do céu e ciclovia virando piscina de duas raias. Tudo para ser uma noite trágica, encharcada de amargura. Entro em casa carregando pencas de pendências, jogo-as num canto, sem vontade de resolver nenhuma. Noto que parou de chover e que a cachorra não passeia há dois dias. Deixo para amanhã, dizem que vem sol. Como cócegas miúdas, alguma coisa muda quando ouço o amarelo em três letras. Sol. De improviso, preparo três sandubas de grãos de soja com cubinhos de tomate, repolho roxo e gorgonzola temperados com azeite e shoyu.
Eu tava triste, tristinha, mas de repente estou pulsante. “Que-que-que-quero fazer mi-mi-mi-mil coisas, ma-ma-mas não consigo fa-fa-fa-fazer nada. Por dentro, fico gaga quando estou eufórica e minhas mãos se agitam como as do Chaves empolgadoâ€, comento no Facebook. A partir daÃ, um baseado não fumado começa a fazer efeito. “Estou leve, flutuanteâ€, falo para um amigo-irmão. “Por quê? Ingeriu hélio?â€, graceja ele. Em conversa simultânea, outro amigo pergunta: “E o q-q-que tá te de-de-deixando eufófórica?â€. “Mu-mu-muitas coisas†é tudo o que consigo responder, enquanto gargalho vendo a compilação “Chaves irritando o Seu Madrugaâ€. Ah, como esse sentir-se boba-alegre faz bem, beleza do singelo que emociona e entorpece.
E zás, as conversas continuam. Academia, psicóloga, boemia, bike, sexo, patins, viagem, ménage, escrever, ver, esquentar, cerveja, criança, companhia, frio, vontade, liberdade, inusitado, sentir, flutuar, disposição, masturbação, ônibus, aeroporto, gay, monogamia, sofrimento, gostar, gozar, ler, foder, contar, conchinha, comer, ideia, palavra, silêncio, som, cheiro, mandinga, rotina... Pelos meus olhos estupefatos, corre uma sequência desordenada de palavras pululantes, explÃcitas ou insinuadas, em pop-ups múltiplos. Palavras que formam frases que formam abraços que formam laços. Palavras escritas, não ditas. Palavras que excitam. Palavras que me movem. Relembrar que sou movida a palavras escritas, achar um pedacinho de mim esquecido e sorrir, e zás.
Passa mais de hora. Para ir saindo do transe, o Ponto de Subida é a notÃcia de que o roller que comprei usado me será entregue em meia hora. Quando chega, cogito estreá-lo na Beira-Mar logo ali, mas os ponteiros indicando meia-noite me fazem desistir. Contento-me em ir do quarto para a cozinha durante alguns minutos, sob o olhar curioso da cachorra, que já lhe cheirou todos os detalhes. Agora tudo o que me pesa é escolher se amanhã vou para o trabalho de bike ou de roller, já que vem sol. Por alguns momentos, sustenta-se a leveza do ser.Â
Eu tava triste, tristinha, mas de repente estou pulsante. “Que-que-que-quero fazer mi-mi-mi-mil coisas, ma-ma-mas não consigo fa-fa-fa-fazer nada. Por dentro, fico gaga quando estou eufórica e minhas mãos se agitam como as do Chaves empolgadoâ€, comento no Facebook. A partir daÃ, um baseado não fumado começa a fazer efeito. “Estou leve, flutuanteâ€, falo para um amigo-irmão. “Por quê? Ingeriu hélio?â€, graceja ele. Em conversa simultânea, outro amigo pergunta: “E o q-q-que tá te de-de-deixando eufófórica?â€. “Mu-mu-muitas coisas†é tudo o que consigo responder, enquanto gargalho vendo a compilação “Chaves irritando o Seu Madrugaâ€. Ah, como esse sentir-se boba-alegre faz bem, beleza do singelo que emociona e entorpece.
E zás, as conversas continuam. Academia, psicóloga, boemia, bike, sexo, patins, viagem, ménage, escrever, ver, esquentar, cerveja, criança, companhia, frio, vontade, liberdade, inusitado, sentir, flutuar, disposição, masturbação, ônibus, aeroporto, gay, monogamia, sofrimento, gostar, gozar, ler, foder, contar, conchinha, comer, ideia, palavra, silêncio, som, cheiro, mandinga, rotina... Pelos meus olhos estupefatos, corre uma sequência desordenada de palavras pululantes, explÃcitas ou insinuadas, em pop-ups múltiplos. Palavras que formam frases que formam abraços que formam laços. Palavras escritas, não ditas. Palavras que excitam. Palavras que me movem. Relembrar que sou movida a palavras escritas, achar um pedacinho de mim esquecido e sorrir, e zás.
Passa mais de hora. Para ir saindo do transe, o Ponto de Subida é a notÃcia de que o roller que comprei usado me será entregue em meia hora. Quando chega, cogito estreá-lo na Beira-Mar logo ali, mas os ponteiros indicando meia-noite me fazem desistir. Contento-me em ir do quarto para a cozinha durante alguns minutos, sob o olhar curioso da cachorra, que já lhe cheirou todos os detalhes. Agora tudo o que me pesa é escolher se amanhã vou para o trabalho de bike ou de roller, já que vem sol. Por alguns momentos, sustenta-se a leveza do ser.Â
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