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DOIS EM UM

DOIS EM UM


Ninguém quer ser apêndice de ninguém – mas quebramos sempre essa regra





Por Milena Moraes*

Era uma vez um casalzinho feliz, desses que curte fazer várias coisas junto, viajar, beber, comer... Aquele outro tipo de comilança também. Os dois se amam e têm um par de planos em comum. Tudo muito bom, tudo muito bem. Um belo dia percebem que estão numa mesmice sem-fim, já não sabem se gostam de fazer isso ou aquilo ou se só fazem porque o outro faz. Aprenderam a ceder, mas cedem tanto que já nem sabem o que querem. O outro passa a decidir arbitrariamente sobre tudo. Um se apaga. Pior, os dois se apagam.


Com medo desse conto – que mais parece uma música “com história” do Renato Russo, mas sem final catártico ou feliz – algumas pessoas passam anos da vida viciadas em frissons: o frisson da conquista, o frisson dos primeiros meses, o frisson do sexo bom (qualitativa e quantitativamente). Nenhuma relação chega a durar mais que seis meses, um ano é raridade com direito a fundo do poço – o desinteresse, depois o obsoletismo, parecem programados para acontecer em uma dúzia de semanas. Soa meio adolescente, mas o pavor de ter que criar um perfil de casal no Facebook atestando que os dois são a mesma pessoa é bem maior.

Ninguém quer ser apêndice de ninguém. Já é difícil demais ter ciência de si próprio sozinho, e dependendo de quem se tem ao lado, pode ser bem pior. O acordo de manter a individualidade deveria ser tácito, para evitar uma quebra de clima num começo de namoro. Mas que não seria má idéia tê-lo escrito e documentado, não seria.

Uma das cláusulas deveria deixar claríssimo que, por mais que os dois pareçam se amar de uma maneira que beire a incondicional (tipo um cachorro que ama seu dono), existem muitas pessoas no mundo tão ou mais interessantes que as partes dessa relação. Em resumo, o outro pode se apaixonar por uma possível musa do Woody Allen, ou por um gostoso à la Javier Bardem, a qualquer tempo.

Entre se perder em uma história típica do imaginário de leitoras da Capricho e sair por aí tendo relacionamentos relâmpagos (praticando a liberdade que saber a diferença entre sexo e amor proporciona), há um meio-termo que pode ser interessante e não castrar ninguém. Dá menos trabalho não se perder no outro - do ponto de vista doentio, não do lírico e poético - e se manter fiel a si próprio do que terminar uma relação com pitadas dantescas e sair por aí tentando se encontrar.

Essa tentativa pode incluir graus etílicos e psicotrópicos inimagináveis e amnésias providenciais em poupar arrependimentos futuros (“se eu não lembro não aconteceu”).

Em qualquer relação todo mundo devia ter no bolso um peãozinho como aquele do Di Caprio no filme do Christopher Nolan. Quando você perceber que está se perdendo, ou que não se lembra da essência do outro... Gruda no talismã e lembra da sua origem!


  • Milena Moraes é atriz e produtora. Conheça melhor o seu trabalho clicando aqui. Para segui-la no Twitter, clique aqui.

 

Comentários  

 
+1 #8 Inês Aparecida 26-09-2011 20:37
Coisas para se refletir para realmente não deixar um relacionamento chegar nesse ponto! Texto muito bem escrito! Parabéns!
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+3 #7 Ed Searom 22-09-2011 12:43
Muitíssimo interessante a abordagem sobre o respeito à individualidade em um relacionamento. Valorizar a individualidade (sua e da sua cara-metade) não significa desrespeito, desinteresse é nem egoísmo. É essência para se manter um bom relacionamento. Parabéns.
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+1 #6 Clarissa Borges 21-09-2011 23:46
Ah, o filme a Origem com o Di Caprio! Muitíssimo bem citado! Seria perfeito ter um peãozinho pra todos aqueles momentos em que estivessemos pertinho de nos perder... poder girá-lo bem forte... Com toda a força e sagacidade de quem ama a si próprio em primeiro lugar e nunca, quer que isso mude!
Isso não tem nada a ver com amar menos ao queridíssimo companheiro... mas acho que as criaturas mais amáveis desse mundo são aquelas que amam a si próprias em primeiro lugar!

Adorei seu texto Milena, teria muito mais a falar..mas ninguém iria ler! kkkkkk

Ps. muito boa a imagem também!
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+1 #5 Claudia 21-09-2011 14:20
Muito bom! rs
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+3 #4 Humberto 21-09-2011 10:49
Excelente colocação sobre um cotidiano cada vez mais comum e maçante. Realmente uma verdade para se ler, refletir e tirar proveito para melhorar a relação, se valorizar e também dar mais valor a quem está do seu lado. Ou simplesmente diagnosticar o problema e buscar a cura.
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+2 #3 Luiz Eugênio 21-09-2011 08:58
Ótimo texto, gostei muito...

Parabéns.
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+1 #2 Nani 20-09-2011 16:54
Adorei o texto!!! Perfect !!!
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+2 #1 beta 20-09-2011 10:26
textos leves, descomplicados... gosto muito do estilo das crônicas, invariavelmente falam do mesmo, mas de forma diferente. o blog já está nos favoritos! =)
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