Morar longe é não ser daqui nem de lá; as pessoas que fizeram seu passado bonito não cabem no seu presente

Por Luisa Nucada
Você se foi e o priminho mais novo nem engatinhava. Agora, ele corre pela casa e só lhe cumprimenta ante a oferta de uma bala. A cada retorno, uma surpresa: o bigodinho do irmão pré-adolescente, o aumento da circunferência abdominal do pai, a mudança na tintura de cabelo da mãe. Você olha para o espelho e indaga: será que eu também mudei?
Ao chegar, já apresenta o cronograma com suas comidas preferidas. A saudade é indigesta, vamos comer para quitá-la. Reunir a família e degustar histórias e fofocas, lembranças e risadas. Teppanyaki, feijoada, escondidinho, churrasco. Mesa farta de amor.
No passeio depois do almoço, você contempla a rua onde cresceu. Namora a calçada rabiscada de giz, o asfalto que tanto lhe ralou, a esquina do primeiro beijo. E goza a agradável sensação de pertencimento.
Aí você visita os amigos que ficaram e não se reconhece neles. A ex-BFF está casada, o que estuda engenharia é um picolé de chuchu, aquele outro acaba de bater o carro do pai. São parceiros de memórias, companheiros de descobertas, inquilinos de um passado bonito. Mas não cabem no seu presente.
De volta em casa, os sentimentos estão confusos. O calor azeda o humor, o colchão afeta a lombar, o sotaque é estranho ao ouvido. Morar longe é não ser daqui nem de lá.
Por fim, há uma formiguinha no seu coração que não lhe deixa ficar.
- A vida é muito boa, mãe.
- Boa demais para ser vivida longe de ti.
- Faz isso não, mãe...
Hora do adeus. Você se despede com cuidado daquele tio-avô octogenário. Recebe a bênção trêmula da mão esculpida de veias sabendo que pode ser a última vez. A vó enfia algum dinheiro no seu bolso. Você finge não aceitar, diz que não precisa, mas ela sempre insiste, coisa mais boa. Aí você sorri, ganha o abraço de seios fartos, os mesmos que alimentaram tanta gente amada, e sente seu cheiro de massa de pão de queijo. É tempo de partir.
Você olha ao redor e tudo lhe parece pequeno, restrito demais, província demais, não satisfaz. Nada nunca lhe basta, você é uma madame meio Bovary e a felicidade mora em outro lugar.
Então você se vai. E só volta ao ninho para lembrar de onde veio.
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