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DIZ COM QUE PERNAS EU DEVO PARTIR

DIZ COM QUE PERNAS EU DEVO PARTIR

 
Em famosos cafés no centro de Santiago as distintas senhoritas trabalham a um fio da nudez

 


Por Maíla Diamante
 
 
Éramos o Albergue Espanhol pelas ruas de Santiago. Taiwanesa, brasileiras, basco, argentino, naquela pinta gringa reluzindo na testa. Estômagos roncaram e os restaurantes pra turista ver da Plaza de Armas não estavam lá convidativos. Uma quadra além e a ingenuidade nos guia até um cardápio honesto pendurado na parede de um bar aconchegante e vermelho. Cedemos à cumbia, música latina que seduz até o mais ortodoxo dos quadris, tomamos assento. Essa é a história dos estrangeiros que trocaram os pés pelas mãos e confundiram restaurante com café com pernas.

Pernas. Fartas, pintadas com o pincel acusativo da celulite, familiares, convidativas. Um café com pernas é mais uma das peculiaridades do país, além das cinzas vulcânicas e do lápis-lázuli. Mais que as atrações chá, café e chocolate quente, essas casas espalhadas pelo centro de Santiago também contam com as atendentes simpáticas vestidas à la Geisy Arruda - com um gosto mais refinado na escolha das cores do traje. Nos "proibidões", os cafés que escondem suas especialidades nas paredes de vidro escuro, as distintas senhoritas trabalham a um fio da nudez - literalmente. O Barón Rojo, pioneiro, presenteia seus clientes com o minuto feliz. São sessenta segundos de chazinho de camomila e strip-tease.

Nenhum cabrón entendeu que diabos fazíamos ali. Um café com pernas diurno é nada mais que um café, frequentado por senhores e também por senhoras. Mas já passava das dez, e o nosso parecia ter algo a mais. Não por acaso, muitos que levavam o alvará "com pernas" foram fechados, acusados de prostíbulos. E os clientes olhavam a cada uma de nós, duas brasileiras e uma taiwanesa, com adagas nos olhos. Não muito diferente do que faziam nas ruas. No país dos mais machistas da América Latina, mulher caminhando sozinha é sobremesa. Em terra de Piñera, todo chileno é pedreiro.

Subimos até um piso menos frequentado, comemos nosso macarrão com suco de damasco, curtimos o pot-pourri choroso da jukebox, nos satisfizemos. O atendimento superou o mais caro dos restaurantes santiaguenses, como esperado. Agradeço até agora esse quê de educação temperada à sexualidade daquela Pacha-mama que nos atendeu. No caixa, primeiro andar, os sorrisos femininos e as farpas dos clientes masculinos mais uma vez. Estávamos em um tribunal e eu não sabia com que pernas permanecíamos lá, com que pernas devíamos sair. Pernas pra que te quero, assim sem jeito partimos.

Comentários  

 
0 #2 Alexandre 26-10-2011 17:58
Oi....e nao é q vc foi mesmo?!?!
Mto boa matéria......
Bjao
Alexandre Leal
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0 #1 Luisa 25-10-2011 09:58
"Em terra de Piñera, todo chileno é pedreiro."
HAHAHA, genial!
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