Vá sem Google, perca-se, demore e apegue-se lentamente à Shakespeare and company
Por Thiago Momm
"Não seja inospitaleiro com desconhecidos - para que eles não sejam anjos disfarçados", diz a enigmática frase do escritor Henry Miller em um raro espaço livre na parede.
Anjos disfarçados ou não, os desconhecidos formam um fluxo ininterrupto de curiosos na livraria Shakespeare and Company. Porque ela é a mais charmosa do mundo, porque tem camas para escritores, porque gênios do século 20 a frequentaram, porque sua fundadora editou Ulisses, de James Joyce, pela aura literária e histórica de tudo isso e para comprar livros, até.
Bons motivos para reservar algumas horas parisienses à Shakespeare and Company não faltam.
Ingênuo
Foi a norte-americana Sylvia Beach quem abriu, em 1919, a livraria que logo se tornaria um centro de agitação cultural parisiense nas duas décadas seguintes. Além dos já citados Joyce e Miller, o lugar atraía Scott Fitzgerald, Hemingway, Gerturde Stein e personalidades do cinema e da música. Especializada em livros anglo-americanos, como é até hoje, a Shakespeare and Company ficava em uma ruela da Rive Gauche – a margem esquerda do Sena, o lado sul da cidade.
Ulisses, um dos maiores romances da literatura até hoje, foi publicado por Sylvia, que relata essa experiência no seu livro de memórias Shakespeare and company – uma livraria na Paris do entre-guerras.
Também vale a leitura Um livro por dia – minha temporada parisiense na Shakespeare and Company, de Jeremy Mercer, ex-jornalista policial canadense. Jeremy não é tão grandioso quanto seu tema, mas só o tema mais que compensa. Seu relato é sobre morar de graça na livraria com as obrigações de ajudar no caixa e ler um livro por dia. É também sobre perrengar com pouco dinheiro por Paris.
E aí um dia você está por lá.
Vá sem Google. Leve apenas a informação genérica "ruela da Rive Gauche", do livro de Sylvia Beach. Seja ingênuo e acredite que isso é suficiente para levá-lo até a Shakespeare and Company. Sim, ingenuidade, porque o apego dos que a conhecem não significa que muitos a conheçam. Pergunte pela livraria e diversos parisienses o olharão como você procurasse pelo próprio Shakespeare.
Depois de um afoito final de tarde se perdendo por ruelas diversas, aprenda algo importante: a Shakespeare and Company de Sylvia Beach fechou, e a que foi aberta depois – pelo também americano George Whitman, em 1951, com autorização de Sylvia – fica em outro endereço de Paris.
Mas não é porque você tem o endereço certo que o dia seguinte será menos emocionante. O número 37 da rue de la Bûcherie, próxima da catedral de Notre Dame, a princípio não existe. Você percorre a rua várias vezes e simplesmente não encontra o 37. Leva-se um bom tempo para descobrir que ela é interrompida por um grande cruzamento e segue depois, em outra direção. Nisso, outro final de tarde se foi e a finalmente encontrada Shakespeare and Company já está fechada.
Não temos
Mas sim, no terceiro dia de busca a Shakespeare and Company está lá, aberta para você. No primeiro andar, os milhares e milhares de livros estão mais ou menos organizados; no segundo, outros milhares e milhares estão dipostos sem aparente hieraquia nas estantes, ou empilhados. É aí que ficam as camas dos escritores, tão parte da visita quanto o resto. Eles tentam não se importar com o vaivém e seguem com as cabeças abaixadas lendo, lendo, lendo.
Em uma cabine, há uma máquina de escrever. Um aviso acima dela diz algo como "isso não é um brinquedo, mas se tiver algo relevante para escrever, fique à vontade". Próximo dali há um antigo piano. Leituras, lançamentos e afins movimentam a livraria constantemente. Em uma das paredes, a frase de Henry Miller alerta sobre os anjos disfarçados.
Uma loira capitaneia o caixa, e você logo descobre que ela é ninguém menos que Sylvia Whitman, filha de George que deve seu primeiro nome à antiga dona da Shakespeare. Percebo que ela não aguenta mais responder perguntas como "É verdade que os escritores dormem aqui?", "É verdade que alguns clientes costumavam roubar livros e seu pai não ligava?" ou "Seu pai ainda é vivo?" (sim, é tudo verdade, e seu pai, 97 anos, ainda vive). 
Então arrisco algo mais específico. Sylvia se anima ao saber que li o livro de Sylvia Beach, mas fecha a cara quando comento sobre o de Jeremy. "Não temos esse título aqui", responde rispidamente. É lenda, a história de que quem vive ali é obrigado a ler um livro por dia. A leitura constante apenas é incentivada. Jeremy Mercer não teve vergonha de dar tons sensacionalistas à sua história sobre a livraria mais estilosa de Paris.
Para morar na Shakespeare and Company é preciso "estar envolvido com a escrita" e passar por uma criteriosa conversa com Sylvia. As obrigações são ficar duas horas por dia no caixa, além de ajudar a abrir e fechar a loja. Como a livraria é anglo-americana, você pode até ter francês intermediário, mas seu inglês tem que ser mais que avançado.
Tendo o francês intermediário mas não o inglês necessário, me contentei em ser um visitante permanente que quase sempre levava estrangeiros até lá. Fui inclusive com uma francesa que ignorava a existência da livraria. Mas essa não era parisiense: havia nascido na Córsega.
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