Antes se resmungava sobre a valorização dos "intranquilos"; hoje, temos medo do tempo livre
Por Thiago Momm
Há 132 anos, Nietzsche estava bastante preocupado com a velocidade do mundo. "Por falta de tranquilidade, nossa civilização se transforma numa nova barbárie. Em nenhum outro tempo os ativos, isto é, os intranquilos, valeram tanto. Logo, entre as correções que precisamos fazer no caráter da humanidade está fortalecer em grande medida o elemento contemplativo", diagnosticou em Humano, demasiado humano.
"Fortalecer o elemento contemplativo". Hum. Um dia, vi uma menina resmungar no Twitter sobre a falta do que fazer nas férias. Eu daria tudo para ver a reação entre bigodes do filósofo alemão ao ler tuitadas desse tipo por aí.
De Henry David Thoureau (1817-1862), preso por se recusar a pagar impostos, a Ken Kesey (1935-2001), preso oficialmente por porte de maconha, mas na verdade por ser um propagador de experiências lisérgicas Estados Unidos afora, muitas tentativas contraculturais foram feitas. À medida que o planeta se industrializava, muita gente levou a sério a busca por uma alternativa ao trabalho das 9h às 18h, mais de 200 dias por ano. Até que agora, pasteurizados e apequenados pelas padronizações, nos entregamos de boa vontade. As férias encurtam, e aos suspiros de sempre hoje se misturam reclamações sobre o tempo livre.
"Fortalecer o elemento contemplativo". Hum. Um dia, vi uma menina resmungar no Twitter sobre a falta do que fazer nas férias. Eu daria tudo para ver a reação entre bigodes do filósofo alemão ao ler tuitadas desse tipo por aí.
De Henry David Thoureau (1817-1862), preso por se recusar a pagar impostos, a Ken Kesey (1935-2001), preso oficialmente por porte de maconha, mas na verdade por ser um propagador de experiências lisérgicas Estados Unidos afora, muitas tentativas contraculturais foram feitas. À medida que o planeta se industrializava, muita gente levou a sério a busca por uma alternativa ao trabalho das 9h às 18h, mais de 200 dias por ano. Até que agora, pasteurizados e apequenados pelas padronizações, nos entregamos de boa vontade. As férias encurtam, e aos suspiros de sempre hoje se misturam reclamações sobre o tempo livre.
Ter liberdade para preencher o próprio dia não era para ser uma coisa boa? Nietzsche decretou que "aquele que não tem dois terços do dia para si é escravo", e que "se o ócio é realmente o começo de todos os vícios, então ao menos está bem próximo de todas as virtudes; o ocioso é sempre um homem melhor do que o ativo".
Tudo bem que, para os que se animam a ver aí um elogio à vagabundagem prolongada, Nietzsche tem um anticlímax: "Mas não pensem que, ao falar de ócio e lazer, estou me referindo a vocês, preguiçosos".
De qualquer maneira, ele enalteceu o valor do tempo livre.
Não voltava mais
Férias são subversivas. À medida que os dias livres passam, recuperamos a medida das coisas. Ao longo do ano, tomamos muitas decisões menores, automáticas. Nas férias, passam dez dias e, ao som do mar, luzes delirantes do sol nos olhos fechados, a vida nos alcança, algum riponguismo assim.
Você deixa de cismar com compromissos e absorve o ano que passou. Mais dias livres, começa a harmonizar algumas coisas que há muito incomodam e se dá conta que outras - primitivismo no trânsito, coisas fakes supervalorizadas, mau caratismo, ligações para 0800, Armandinho - são mais difíceis de aceitar e...
Tudo bem que, para os que se animam a ver aí um elogio à vagabundagem prolongada, Nietzsche tem um anticlímax: "Mas não pensem que, ao falar de ócio e lazer, estou me referindo a vocês, preguiçosos".
De qualquer maneira, ele enalteceu o valor do tempo livre.
Não voltava mais
Férias são subversivas. À medida que os dias livres passam, recuperamos a medida das coisas. Ao longo do ano, tomamos muitas decisões menores, automáticas. Nas férias, passam dez dias e, ao som do mar, luzes delirantes do sol nos olhos fechados, a vida nos alcança, algum riponguismo assim.
Você deixa de cismar com compromissos e absorve o ano que passou. Mais dias livres, começa a harmonizar algumas coisas que há muito incomodam e se dá conta que outras - primitivismo no trânsito, coisas fakes supervalorizadas, mau caratismo, ligações para 0800, Armandinho - são mais difíceis de aceitar e...
E aí vem a agonia de muitos para voltar ao trabalho, às aulas. "Se eu tivesse mais 15 dias de férias não voltava mais", escutei outro dia. E é verdade. Com diferentes sortes e artimanhas, já tive várias férias de 40 dias ou mais. Retornar ao mundo depois de tanto tempo foi sempre mais difícil, mais melancólico.
Nem por isso eu abriria mão dessas férias compridas. O que é a vida sem elas? É preciso mais que aquele descanso ensanduichado entre o natal e o começo do ano para enxergar mais longe.
Boring people
Mas insista em pensar diferente e se prepare para ser visto como louco. Diz Nietzsche, voltando à carga:
"Com o enorme aceleramento da vida, o espírito e o olhar se acostumam a ver e julgar parcial ou erradamente, e cada qual semelha o viajante que conhece terras e povos pela janela do trem. Uma atitude independente e cautelosa no conhecimento é vista quase como uma espécie de loucura, o espírito livre é difamado."
Sim, para algo assim serve o tempo livre. Para pensar diferente. Minha conhecida tuiteira que me desculpe, mas, como ouvi no genial seriado Mad Men (aliás, ótima pedida para quem está de férias) outro dia, "only boring people get bored".
Sim, é exatamente isso. "Apenas os entediantes se entediam."
_____
Para gostar do tempo livre:
Contracultura através dos tempos, de Dan Joy e Ken Goffman (2007)
A desobediência civil, de Henry David Thoreau (1848)
| < Anterior | Próximo > |
|---|





Comentários
Com pressa nada é realizadao de forma satisfatória, nem mesmo sexo.
Se de trem era muito rápido, imagina de avião.
Todos querem falar daquilo que não conhecem direito.
Estamos todos muito acelerados.
Contemplar é preciso, apressar não.
Assine o RSS dos comentários