Os trabalhadores braçais estão colocando seus filhos na faculdade - para vê-los reduzir a renda familiar

Por Thiago Momm
Caso um. Conheço um administrador que ganhou licitação de uma prefeitura lá pra cima no país. Quer dizer, ele perdeu para uma multinacional, mas de acordo com os preços oferecidos, deveria ter ganhado.
Um advogado conseguiu reverter a decisão. Mais tarde, advogado pago, serviço para a prefeitura feito. Próximo passo? Receber por esse serviço. Lá se vão meses e nada. Um caso corriqueiro: prefeituras quebrando empresas.
“Também, vocês fizeram uma venda seca”, o administrador ouviu de um funcionário da tal prefeitura, em referência à falta de mãos molhadas no meio do caminho. Até brinquei com ele: “Não é um romance do Graciliano Ramos, Vendas Secas?”
Um escândalo de corrupção na tal cidade, na mesma época, derrubou uma penca, prefeito inclusive. O vice assumiu propondo oficializar um código de ética. Animador? Não. Patético. O novo alcaide também é acusado de sério envolvimento em maracutaias.
Caso dois. Caixas com materiais contaminados têm aquelas caveiras pretas de alerta. As caixas vão para o lixo lacradas, mas conheço uma faxineira que decidiu abrir uma delas por conta própria e se furou com um produto. A partir disso, processou a empresa que havia colocado as caixas – fechadas – no lixo. No hall do edifício, outro funcionário disse para ela que “tem mais é que tirar dinheiro desses empresários, mesmo”. Assim, como num bom clichê de novela.
Por enquanto, a justiça não deu razão à mulher – que aliás não se contaminou com nada.
Caso três. Para ser repórter do maior jornal do país, um jornalista eliminou 20 concorrentes no vestibular, 270 no processo de trainee e 30 na prova para contratação. Isso há quatro anos. Salário bruto: R$ 2.520. Líquido: R$ 2.080. Em São Paulo.
O caso três, embora não envolva desonestidade, se mistura muito bem ao tema dos outros dois: a dificuldade de se viver bem à base de cérebro e pelas vias normais neste país. Não sei vocês leitores, mas eu acredito em países que valorizam braços mas hipervalorizam cérebros – recompensar igualmente as duas coisas soa muito bonito, mas no contexto econômico mundial significa ficar para trás. Quem me explicou isso melhor que ninguém foi um indiano que migrou para os EUA, abriu seu caminho à facão e hoje é muito bem-sucedido no seu trabalho com tecnologia. Vocês veem, a Índia se importa mais com cérebros que nós.
Faxineiras, encanadores, pintores, jardineiros: muitos ganham mais que jornalistas, farmacêuticas, fisioterapeutas, microempresários. Que tal ficarmos contentes com esse aquecimento da economia mas remunerarmos melhor a queimação de sinapses? Os próprios trabalhadores braçais estão colocando seus filhos na faculdade – e se o mercado não mudar, viverão a ambiguidade de ter filhos mais instruídos mas com piores condições financeiras.
Como no Brasil não se exalta a meritocracia, e como vivemos sob o dogma católico de que ganhar dinheiro é pecado, há algo cruel: os que torram décadas em trabalho e estudo para conseguir conforto são confundidos com os que sobem de maneira rápida e nebulosa. São vizinhos de cerca, e para quem observa de longe, com o velho olhar socialmente rancoroso brasileiro, são iguais. Na dúvida, uma boa é processar “esses empresários”.
Como mudar esse preconceito? Não vejo muita saída. Quem sabe se o Chico Buarque cansasse de exaltar a beleza da pobreza e cantasse uma sobre a gente, que tenta ser 10 de 2700 candidatos nos processos de seleção, leva calote de prefeituras e responde a processos absurdos. Isso. Chico, canta uma pra nós!
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Comentários
repórter=cérebro??!
Tá querendo aumento, pede pro teu chefe!
ótima analise!
Concordo plenamente com vc.
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