No restaurante japonês, ele se depara com os limites do seu papinho pré-cozido

Por Thiago Momm
3/2/12
O combinado era o número 22, a companhia variada, o roteiro conhecido – saquê ou cerveja, sushis (34 unidades) e sashimis (10), nenhuma sobremesa, pagamento da conta e, finalmente, a bifurcação: caminhar os 50 metros de brita até o carro no estacionamento do restaurante, se o plenipotenciário da noite fosse seu obstinado agente dos países baixos; ou caminhar os 20 metros até o deque diante da Lagoa, para digestão & conversas tão amenas quanto o cenário, se o contexto pedisse e no comando dele estivesse seu diplomático agente cerebral.
Um dia contabilizou: 17 moças, 15 arremates – uma parte só no sentido leve de arremate, uma parte na verdade já arrematada em ocasiões anteriores, mas de qualquer maneira um restaurante imbatível, onde a comida não pesava e o cenário fazia o resto. Sim, ele sabia quão adolescente era tabular mentalmente as mulheres levadas para jantar em um determinado restaurante. Duras críticas ou brandas ironias a respeito já haviam sido escutadas ao longo dos seus 16-29 anos. Resultou que ele internalizou o hábito, passando a restringir números assim à memória, sem deixar escapá-los pela boca.
O costume só não cessou porque ele 1) mantinha assim um dos grandes fios condutores da sua memória, apenas colocando, no lugar do que poderiam ser lembranças de namoros duradouros, lembranças de uma comovente variedade de rostos, palavras, blusas, hálitos, reações; 2) ignorava com a exatidão dos números as complexidades de alguns casos (as dispensas e frustrações dolorosas da sua ou da outra parte), fingindo momentaneamente que viver era fácil, simples, linear; 3) sempre desconfiou do feminismo como algo mais coerente em livro da Simone de Beauvoir e vidas alhures do que na sua realidade, onde via mulheres colhendo cinicamente os benefícios do politicamente correto e, não menos, tripudiando os machos hesitantes; 4) sempre desconfiou de críticas sérias às escolhas nos relacionamentos privados. “Você é ético?”, perguntou a professora de francês no meio de uma aula. “Na vida profissional, muito”, foi a resposta que lhe veio do fundo d’alma.
A caminho do prédio de uma convidada inédita, retomou seu tolo exercício silencioso: 15 de 17 dava algo próximo de 90%. Bom, bem bom. Não havia casa noturna tão ditosa para ele quanto aquele restaurante japonês. Além disso, a rigor talvez fossem 16 casos bem-sucedidos, dada uma jornalista não beijada sob as chouchins vermelhas com inscrições do teto mas pega 20 minutos depois, em bar subsequente. Assim que sobrava apenas a 17ª, uma amiga com quem já havia trocado umas bicadas afetivas, mas que não obstante se permitiu a afronta de um “não, não” em pleno banco no deque, diante da lua nítida de um céu limpo de domingo em Florianópolis, rejeição das mais feias de se ver e mais constrangedoras de se lembrar.
A 18ª entrou no carro. Ele estava ansioso. A menina, uma beldade evidente, universitária de 20 anos da federal com dentes grandes e uma leve salpicada de sardas, pendurava um óculos escuro gigante (19h50, dezembro) no seu diminuto nariz. Tratava-se do mesmo óculos que ela usava em fotos no mundo de Zuckerberg. Certo que lentes tão grandes sobre o rosto lembravam a este seu entusiasta em particular as tão genéricas patricinhas adeptas do óclão. Mas já sabendo que sem nada os seus olhos impressionavam ainda mais que o resultado artificial, ele relevou. Um homem flexível, eis o que ele era.
A 18ª entrou no carro. Ele estava ansioso. A menina, uma beldade evidente, universitária de 20 anos da federal com dentes grandes e uma leve salpicada de sardas, pendurava um óculos escuro gigante (19h50, dezembro) no seu diminuto nariz. Tratava-se do mesmo óculos que ela usava em fotos no mundo de Zuckerberg. Certo que lentes tão grandes sobre o rosto lembravam a este seu entusiasta em particular as tão genéricas patricinhas adeptas do óclão. Mas já sabendo que sem nada os seus olhos impressionavam ainda mais que o resultado artificial, ele relevou. Um homem flexível, eis o que ele era.
Ou nem tanto. A caminho do seu nipo-abatedouro, percebeu o quanto a sua conversa estava pré-cozida. Ele basicamente tinha saído de casa com um punhado de ideias fixas que tiraria do forno depois de cinco minutos para representá-lo definitivamente. É claro que essas ideias não salvariam um monomaníaco que mal sabia ouvir. Assim foi que ele esperou frases dela nada parecidas com deixas e serviu cruas informações de suas viagens pelo planeta, seu apego ao mundo dos livros/ideias/idiomas, seu desapego ao reconhecimento profissional etc. Patético. Mas sejamos justos em dizer que lembrar disso já o eriçou de vergonha até sozinho, de madrugada, enquanto enchia um copo d’água no galão da cozinha de casa.
E então eles ficam sob as chouchins vermelhas. O combinado 22 é pedido (“acaba sendo o melhor, dá pra dois tranquilo”), cervejas idem. Restaurante cheio, noite aberta e bafenta. É dezembro e ele não quer ter 29 anos. É dezembro e se os dois ficarem hoje e pelos próximos meses ele quer de volta a audição de ventos e a devida absorção de sol em sábados lesos de melancolia feliz e trilhas para mini-praias e cervejas de trigo e conversas menos pré-cozidas. Certamente ela não merece ser vista como um número. “Que babaca que eu sou. Nunca mais vou fazer essas contas idiotas”, ele promete a si mesmo.
Mas para que tudo dê certo ele tem que lidar com uma pessoa de verdade, e não a que idealiza. Ele segue sem saber escutar. Só pinça, aqui e ali, algumas frases que constroem a mulher que ele quer construir: os "pelo menos dez" livros que ela diz ter lido nas últimas férias de julho (ela, da área da saúde); muitas corridas e comidas saudáveis; a irmã em intercâmbio na Espanha; a saudade do restante da família, também longe de Florianópolis.
Nisso ele se auto-elege tudo que ela precisa na ilha (ela, com amigos de sobra em dezenas de fotos da faculdade) e reforça seu papel “namorado promissor”, tentando mostrar responsabilidade. É ridículo. Ele segue soando artificial. Ela o escuta olhando para a long neck enquanto reforça, com o polegar e o indicador, o nó do guardanapo em volta da garrafa.
A coisa toda só piora. No caminho de volta para casa (nada de deque, nada de parada no estacionamento) não há clima nenhum. Já tendo passado por isso algumas vezes na vida, ele decide mostrar consciência de que tudo está errado. Fala coisas parecidas com desculpas pelo seu jeito afobado, explica que ela o tira da zona de conforto por ser realmente incrível.
É claro que ela diz para ele relaxar. Mas claro também que não o beija antes de sair do carro. A única coisa não tão previsível foi sua justificativa: não é que ela não queira, "pelo contrário, gostei muito de hoje, a gente marca outra".
Mas nunca marcaram. Ele tentou contato com ela no mundo de Zuckerberg. Nada. Para o mazanza aprender.
- Leia os textos anteriores desta série, A avenida dos 30 e Licença.
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