Roberto Carlos mané cantava sertanejo antigo no mercado público; aí, veio o gênero universitário
Por Thiago Momm, com foto e vídeo de Gabriel Rinaldi
"O sertanejo universitário acabou com a carreira dele", sorri um frequentador do Mercado Público de Florianópolis. É sexta-feira à noite e a Naipe está em uma das mesas do Box 36.
A carreira no caso é a de Roberto Carlos, antigo cantor de sábados do mercado. O apelido é mais que gasto entre cantores de meia-idade saudosistas e excêntricos Brasil afora: remete ao emocionado cabeludo do nosso especial natalino de cada ano. Como metade do país, Roberto Carlos, o do mercado ilhéu, tem um apego de vida inteira ao cancioneiro romântico de Roberto Carlos, o original.
O Roberto de chinelos que canta para a Naipe tem tudo para não ser matéria. Publicar ecos de Roberto Carlos é quase tão gasto quanto adotar o apelido. A revista Trip, por exemplo, já deu capa com seis sósias do rei (clicada, aliás, pelo mesmo fotógrafo da imagem acima). Outro aspecto também desestimula: não querer incentivar o amor brasileiro exagerado e indulgente pelos seus pobres. A velha reportagem "ser fudido é cool", reflexo do que Lobão chama de "alguma coisa patológica pela pobreza" aqui no país.
São flashes assim que me vêm à cabeça enquanto Roberto Carlos segura uma sacola com um exemplar da Contigo (Fábio Assunção na capa). Mas não é possível ignorá-lo. Abaixo de muitas camadas de urbanização há a identificação com outra pessoa a partir das contrariedades da vida.
Todos carregamos cacos de nós mesmos ao longo dos anos, mas eu e outros da classe média fazemos isso com discrição. Portanto os que carregam seus cacos na frente de todo mundo – como o Roberto Carlos sem os quatro dentes entre os caninos – nos incomodam bastante, e de vez em quando ainda podem, vejam só, nos tocar.
Velha cepa
"Quando eu canto parece até que eu estou feliz", explica Roberto, respondendo à minha pergunta sobre o que o motiva a soltar o gogó. Quando quero saber o que ele pensa enquanto entoa velhos hits a resposta não é menos perspicaz: "Quando eu canto eu só penso no cantar, mesmo."
Viúvo há 15 anos, há 14 ele solta a voz, mas diz que uma coisa não está ligada à outra. De qualquer maneira, seu setlist é de músicas de amor – senão as do rei, as de sertanejo de velha cepa, como a que cantou no vídeo abaixo para a Naipe. Por isso brinca o frequentador do Box 36 que o sertanejo universitário acabou com a carreira de Roberto.
Há alguns anos ainda era possível ouvi-lo cantanto diante de rodas no mercado aos sábados. Depois ninguém mais quis ouvi-lo. E assim estava, recolhido ao que a vida o permitiu ser, na sexta-feira em que cantou para a reportagem. Ficaria um pouco mais no mercado e pegaria um infinito ônibus até a Palhoça, onde mora. Já eram quase 22h e o Box 36 fervilhava. "Por que a Contigo?", pergunto. "Para ver os artista", me diz, olhando para cima.
Roberto se apega à cantoria como boia cotidiana e vê na Naipe um transatlântico passando ao longe.
– Vai sair na TV?, ele se anima, sobre minhas anotações e a presença de um fotógrafo de São Paulo.
– Não.
– Na revista?
– Olha, é melhor a gente ser sincero e não criar expectativas. Não temos espaço na revista. Vai sair na internet.
– Ah, não tenho internet – ele lamenta, a voz sumindo. Mas fica com o endereço do revistanaipe.com.
Alguém avise o Roberto que ele está aqui. Sendo possível, favor levá-lo numa lan house.
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Veja abaixo sua interpretação de Fio de cabelo:
http://www.youtube.com/watch?v=yDbKifHzj_I
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