Por que os resmungos com a nova classe C? Estamos nos enxergando no espelho - e ficando incomodados com a imagem?

Por Iana Lua e Thiago Momm
“As classes sociais recém-chegadas a aeroportos, com sua alegria de praça de alimentação”, diz o filósofo e colunista da Folha de S.Paulo Luiz Felipe Pondé, repetindo um resmungo tão comum por aí.
“Tu tá na tua casa, assistindo televisão, e chega alguém e muda o canal”, explica à Naipe o promoter de festas Edmilson Cruz, sobre a nova classe C.
Os não-ricos em Jurerê. As romarias aos shoppings. O barulho. Cresce a classe média, crescem as reclamações sobre o crescimento da classe média. Quem nunca ouviu um comentário pejorativo sobre aquele sujeito que há dez anos não estava na pista de dança? Não foi, por acaso, você mesmo que fez esse comentário?
Mas por quê? Por que tantos de nós estamos incomodados – e não alegres – com a prosperidade alheia, se uma sociedade com diferenças menos gritantes tende a ter menos problemas? A velha barreira de classe não ganhou nem uma pequena rachadura?
Inveja
Será que estamos incomodados por estar vendo nossos hábitos refletidos no espelho – e a imagem incomoda?
Os gostos são misturados. Ícones culturais malvistos não vêm com um “C” na embalagem. Segundo pesquisa citada recentemente pela revista Veja, 35% das classes A e B apreciam sertanejo - anexado à palavra “chic” em uma festa paulista. E segundo pesquisa de 2003 da Associação Brasileira de Produtores de Discos, há proporcionalmente mais gente das classes A (10%) e B (11%) escutando axé do que a CDE juntas (9%).
Como já mostraram tantas novelas, o silicone GGG pulando para fora da blusa com pegadas de tigre não escolhe classe. “A ascensão social embaralha os signos de distinção, sobretudo pelo viés do consumo”, diz o Doutor em Sociologia pela UFSC Jacques Mick. “A distribuição de renda, o crescimento econômico e a elevação na oferta de crédito permitem acesso a bens (como gadgets) e serviços (como passagens aéreas) a muito mais indivíduos que dez anos atrás.”
E rá!, aí está aquele desconforto de quem está economicamente lá em cima com quem desponta lá longe na paisagem. “Para alguém da elite, é hoje mais difícil se distinguir dos demais nesses aspectos [de consumo] – o que produz reações de desconforto, irritação, incômodo”, sintetiza Mick.
Entre todos, aumenta a tensão. “Num mundo em que as pessoas podem viver de bolo, em vez de pão, não se pode evitar o estresse da inveja e da competição social”, disse em entrevista sobre o século 21 o maior historiador vivo, Eric Hobsbawn.

Manequins
Não que todos no Brasil, claro, já vivam de bolo. Mas o pão vai, para muitos, deixando de ser a única opção, como fica claro para quem passeia em um shopping como o Via Catarina, na Palhoça - uma cidade-ícone do crescimento econômico nacional.
A Naipe tirou duas tardes para perambular pelo Via Catarina e pelo Iguatemi, que podem ser vistos como as duas pontas socioeconômicas entre os cinco maiores shoppings da Grande Florianópolis. O Iguatemi fica no bairro Santa Mônica, área próspera de Florianópolis. É claro que há diferenças entre os shoppings – mas também há semelhanças.
As diferenças: as comidas light ainda não chegaram ao Via Catarina (o hot-dog com bacon está lá), e o shopping não tem livraria [P.S.: tem uma livraria-papelaria; ver comentário 9], muito menos com diversos livros em inglês, como no Iguatemi; há mais filmes dublados em cartaz e menos lojas de marcas pretensiosas; muitos espaços comerciais ainda estão desocupados, à espera de empresários.
As semelhanças: ambos têm salas de cinema 3D, e recentemente uma cópia legendada do elaborado Meia-noite em Paris, de Woody Allen, estava nos dois shoppings; em tamanho e proposta, os dois lugares são parecidos (o Via Catarina já supera por muito o estereótipo mini-shopping do interior); algumas marcas importantes se repetem – quando não em relação ao Iguatemi, em relação ao Beiramar: Subway, Beagle, Hering, Dits, M.Officer e outras.
A diferença está no tamanho das lojas e na aposta, no Via Catarina, em modelos de roupa menos caras – algo evidente nos manequins na vitrine, com mais calças jeans do que com vestidos, por exemplo.
Conversando com gerentes de lojas, porém, a Naipe apurou que os gastos às vezes são parecidos. Se não leva a jaqueta de R$ 1 mil, o consumidor do Via Catarina eventualmente leva dez peças de R$ 100. Tem, inclusive, cliente que sai de Florianópolis e vai à Palhoça em busca de atendimentos menos entojados.
- A educação não muda muito, inclusive a classe C é menos arrogante - diz o promoter Edmilson Cruz, que no entanto acrescentou o termo “VIP” (Very Important Person) no login do seu Facebook.
Antipopular
Para um extraterrestre observando nossa movimentação aqui na Terra, tudo soa muito esquisito. À medida que as pistas de dança enchiam, os mais endinheirados migravam para as alas VIPs; à medida que as alas VIPs encheram e aquele sujeito com uma gola pólo e um sapatênis muito familiares também mandou descer um combo de vodca com energético, os mais carteirudos começaram a correr da balada.
“A classe A deixou de ir nesses lugares. Ela tá em alto-mar: junta de 10 a 20 lanchas e faz uma festa”, conta Edmilson. “Hoje, o símbolo de status dos verdadeiramente ricos é possuir um jato particular (...). Os bens que hoje os definem devem ser esotéricos ou exclusivos”, afirmou, na entrevista sobre o século 21, Eric Hobsbawn. Não à toa, a segunda cidade com mais helicópteros no mundo é São Paulo. Para diferenciar essas pessoas, a Vejinha SP fala em classe “AAA”.
Mas além de fugir para ar e mar, azelite parecem mais é querer que ozascendente se danem: “A elite brasileira carrega as marcas da experiência colonial, que constituiu os fundamentos da desigualdade no país. Parcela significativa dela é antipopular, demofóbica mesmo”, sustenta o sociólogo da UFSC Jacques Mick, lembrando das “marcas históricas” nacionais. Até poucos anos atrás, ele lembra, era comum encontrar à venda apartamentos com dependência de empregada, “domesticando a antiga relação entre casa grande e senzala”.
Para Edison Bertoncelo, Doutor em Sociologia pela USP com a tese Classes sociais e estilos de vida na sociedade brasileira, a estrutura social no país ainda é "relativamente pouco aberta". Por isso, explica à Naipe, "é preciso cautela em associar 'a ascensão da classe C' [aspas suas] a melhorias na desigualdade socioeconômica e à maior mobilidade social".
O que o Brasil precisa muito mais é de mobilidade ascendente, que implica "um movimento para posições ocupacionais consideradas superiores em termos de rendimentos materiais e prestígio social". Há uma relativa abertura para isso, afirma Bertoncelo, mas a tendência é a reprodução, no topo, da estrutura de classes.
Woody Allen em um shopping na Palhoça, de qualquer maneira, era algo impensável há uma década e é boa notícia. Assim como, em certo sentido, até mesmo os silicones GGG nas blusas com pegadas de oncinha. Claro, não é algo que tenha muito a ver com o país idealizado por muitos, não significa o melhor dos avanços culturais, atesta o nosso vício do supérfluo. Etc.
Mas pode ser boa notícia porque lembra das nossas semelhanças. Serve de espelho. Com a epidemia de plásticas exageradas e ao som de Luan Santana e Paula Fernandes, que seja, nos forçamos a repensar o país.
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Comentários
A maioria dos brasileiros não sabem nada de Brasil, é impressionante! !
Leia alguma coisa sobre o fenômeno Orkut no Brasil (lembram?!).O brasileiro, em geral, seja de que classe for, seja de que região for, constrói-se, para si mesmo, a partir da imagem que o outro, que a sociedade faz dele! O povo brasileiro, em geral, dá muita importância ao que pensam dele! Por isso o orkut fez tanto sucesso entre nós.
sim, sim, outros povos são assim também! mas estamos falando de quem??? E tem uma razão histórica para isso. Leia Raízes do Brasil, pelo menos, antes de TENTAR PARECER bem educado e informado! O tiro está saindo pela culatra e vc está parecendo bem o oposto!
O óbvio é o mais interessante, quase incompreensível . Em meio a milhões de anos e reconstrução de varias formas literárias, ainda fica a dúvida do amanhã que será diferente do hoje. A aceitação deste fato causa intensas dores de cabeça. O hoje vivo, (em formas de comodismo), e não há falta de mudanças, mas o claro é que este sabe que o hoje nem se aproxima do ontem e muito menos do anteontem. Falta sim, o pensar no pós amanhã, se recordando do que éramos no ano passado.
As classes acendestes carecem de depuração porque a classe formadora de opinião, querendo manter distância segura, continuam fazendo políticas que contribuem com que os "novos ricos" permaneçam assim. A falta de real investimento em educação por nossa parte (sim, porque somos nós que elegemos os representantes para formularem e colocarem em prática as políticas) sempre vai manter esse abismo social. No final das contas, somos todos culpados, já que ninguém faz nada pra cortar a raiz do problema.
ENTÃO IMAGINA O QUE ACONTECE QDO UMA FAMILIA DA CLASE D CHEGA PARA A C ??? ( O QUE CONVENHAMOS, É A MESMA M*) ELES TB QUEREM SE APARECER COM ROUPINHA DE MARCA, PRATA PENDURADO EM TUDO QUANTO É BURACO E ETC;
O POVO DE FLORIANÓPOLIS E REGIÃO PRECISA REVER SEUS CONCEITOS, É MTA FUTILIDADE, PRATICAMENTE TODO MUNDO É ASSIM AQUI NESTA CIDADE,
POVO FUTIL E VOLUVEL!!
ESSE É O MEU BRASIL!!!
PS: AINDA ME MANDO DESSE LUGAR!!!!!
HURRY UP!!!!
Como se isso acontecesse só na classe média. Falta de educação tem em qualquer lugar. É muito mais fácil você ser mal tratado por alguém que se acha superior, do que o contrário.
Tem muita gente que nasceu em berço de ouro que escreve cachorro com x e só quer saber de internet para colocar fotos no facebook mostrando sua nova prótese de silicone pra receber mais "curti" que a 'amiga'.
Somos dois, aqui em Porto Alegre, frequento o Iguatemi de chinelo Havaianas...quando estou em Floripa se faço isso me olham atravessado.. é questão de cultura.
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