O dono do campo joga dominó, a TV exibe lutas da WFC e os peladeiros-trabalhadores ignoram o frio

Por Thiago Momm
Muito depois que os holofotes do Orlando Scarpelli e da Ressacada se apagam, os do C.E.S. futebol indoor continuam acesos. Uma bola do supermercado Imperatriz voa pra lá e pra cá. Onze motos estão estacionadas à beira do campo. Apesar do "indoor" no nome, o campo é a céu aberto.
São 2h10 de uma terça-feira e a Naipe passa frio enquanto espera para falar com alguns dos 14 peladeiros. Num espaço fechado, uma TV está ligada no Premiere Combate e na mesa em frente o dono do C.S.E. joga dominó. Há oito jogos de futebol por semana depois da meia-noite, e alguns terminam depois das 4h.
Mas por que alguém jogaria suas peladas tão tarde?
Eles são pizzaiolos, garçons, chapeiros e motoboys noturnos. Entram no trabalho entre 16h30 e 19h e saem bem depois da 1h. Preferem brisa e silêncio noturnos ao barulho e calor da tarde. Por isso jogam madrugada adentro no campo vizinho ao condomínio Bosque das Mansões, no bairro Roçado, em São José. Alguns jogam uma segunda pelada na semana em outro lugar. O C.S.E. está aberto há três anos e meio, e a mensalidade é de R$ 320 - dividida por 14 jogadores e 4 jogos, resulta em R$ 5,70 por partida para cada um.
Combinado gastronômico
Peça a escalação das equipes a Jucemar Francisco do Amaral, o dono do espaço, e neons com nomes de variados pontos alimentícios da cidade (Kobrasol principalmente) passarão em fila pela sua cabeça. Na terça-feira jogam sorveteria Tuzzy, pizzaria Toscana, alguns dogões. Os outros dias têm Bokas, Pizza Hut, McDonald's, Vó Luzia, supermercado Giassi, cantina Zabot, pizzaria Hipopótamus. O pessoal do Pizza Hut joga das 2h30 às 3h30, mas com Jucemar concentrado no dominó não é raro que a pelada se estenda.
Às vezes os dois times são formados por funcionários de um mesmo lugar, e às vezes, como na terça, o meio-campo é um combinado gastronômico. "A gente é tudo concorrência", sorri o garçom da Hipopótamus Edson Guinzel, que já jogou até 4h30. O sorriso sugere que os trabalhos concorrentes não se traduzem em pancadaria - no jogo que acompanhou, a Naipe ouviu no máximo aquela tradicional irritação de alguém com o próprio time.
"Aqui o cansaço sai fora", diz um empolgado Edson, sobre jogar logo depois do trabalho. "Mas no inverno um pessoal desanima, já jogamos até com quatro pra cada lado."

Namoradas
Com capacetes nos braços, três mulheres em cadeiras de plástico bebem cerveja de litrão à beira do gramado. A Naipe imagina que sejam namoradas dos jogadores. Não são. "A gente trabalha com eles", logo esclarece Nina Calgaro, pizzaola da Toscana. Ela e as amigas mais conversam que prestam atenção no jogo. "Hoje tá feio", comenta uma delas. São 2h15 e uma bola reserva, com alguns gomos soltos, substitui a do Imperatriz - parada e solitária acima da rede do campo. Um dos goleiros está descalço, e o jogo termina 14 a 12 para o time de camisetas variadas, sem colete verde-limão.
O motoboy da pizzaria Toscana Natã Gomes joga tranquilo, sem dever satisfações a ninguém. O garçom Edson já levou a namorada ao campo, o que foi bom "pra provar pra ela que estava mesmo jogando futebol". Terminada a pelada, os bares da região estão quase todos fechados, e no máximo toma-se uma cerveja no próprio C.S.E. antes de se ir para casa. Não se tem certeza que todas as namoradas e esposas achem o jogo noite afora necessariamente ruim.
E sexta, sábado, domingo, as peladas vão até mais tarde ainda?
"Não. Não dá jogo por causa da balada", explica Jucemar.
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