"O disco Sanctity é uma conexão com o divino. Uma experiência completa, em música e letra"

Por Debora Rosseto*
03/09/11
Começo com um causo: um dia eu dei carona à família Varzim. No meu carro tocava um dos meus CDs preferidos de todos os tempos, Sixpencenonethericher, da banda homônima. O Isaac ficou surpreso e me perguntou algo do tipo: “Como assim você tá ouvindo isso? De onde você tirou?”, e disse que gostava muito. Disse outras coisas, algo sobre ter ouvido muito gospel, talvez algo sobre o fim da banda, mas minha memória é ruim. E minha atenção estava no Benjamin.
Na semana passada, estive no show de lançamento do álbum Sanctity, do Mapuche (projeto solo do Isaac) e essa memória veio à tona. E isso porque muitas das coisas que eu mais gosto no CD do Sixpence estão ali.
A principal delas é que ambos oferecem uma experiência de conexão com o divino. Uma experiência completa, em música e letra. Uma experiência universal – isso porque nos liga com o que quer que exista. E é por aí que Isaac caracteriza sua espiritualidade: “Se você considerar a palavra religião a partir do original latino religare, religar com o divino, posso dizer que sou um cara bastante religioso, sim”. Além disso, ele credita ao fato de ter sido criado (tanto ética quanto musicalmente) na Igreja Luterana sua forte ligação com música “de Igreja” – que alguns diriam gospel. “Essa coisa que por momentos é solene e em outros momentos é explosiva e visceral... Adoro música que tenha a ver com tripas, com o coração rasgado e com todo mundo cantando junto de olhos fechados (risos).”
É claro que isso transparece no álbum (assim como no CD de que eu e Isaac gostamos). Ambos têm em comum a sonoridade complexa, com um quê de orquestrada, ainda que soe absolutamente despretensiosa – graças à parte visceral, orgânica. É como uma grande jam em que uma música parece puxar a outra, falar com a outra. Como se alguéns cheios de tesão em dizer algo através de música se juntassem e tocassem.
No caso do show, esses alguéns foram, além de Isaac (que gravou o álbum num processo, segundo ele, “solitário cooperativo”), Cisso Fernando, Taciano Zimmermann e Carlos Costa. “Sempre soube que queria transformar o Mapuche em uma banda para os shows, toda essa coisa de tripas que falamos faz muito mais sentido quando você tem pessoas interagindo entre si musicalmente, a possibilidade do erro, da desafinação, do nervosismo, isso tudo tem a ver com a minha música.”
E se alguém aí está se perguntando que tipo de música é a dele, o próprio responde (já que eu considero quase impossível - e tedioso - tentar classificar música em gêneros e afins): “É difícil classificar, mas é preciso fazê-lo, afinal as pessoas ouvem tanta coisa diferente hoje em dia que se não forem as tags, sua música pode ficar perdida eternamente nas prateleiras infinitas da web... Enfim, entendo a música do Mapuche como algo que circula entre o trip-hop, o rock e o dark-folk.”
As letras mais parecem apelos, frases que ecoaram em sua cabeça por dias e noites, do que poemas retrabalhados no papel. “É exatamente isso... Não só as letras mas a música também, loops de idéias que passam a fazer sentido na repetição mais do que na narrativa.”
Todas as ideias
Sanctity é tão universal (e absolutamente pessoal) que me pergunto em que medida ele poderia ser tido como fruto de Florianópolis. Para Isaac, a diferença de estar aqui, artisticamente, é que “Floripa é uma ilha. Redundante, né? É um mistério viver aqui”. Recentemente chamado de “consciência moral da música experimental e eletrônica catarinense” e conhecido como uma das figuras mais queridas e respeitadas da noite dita alternativa da ilha, ele sente isso mais como um privilégio do que como uma responsabilidade. E completa: “A cidade foi muito legal comigo e com a Paula. Sempre tivemos uma receptividade muito grande com todo o trabalho que propusemos, acho que justamente o fato de eu ser de fora tenha contribuído para isso, afinal, ninguém fica dizendo 'Pô, mas esse aí é o gordinho nerd que não falava com ninguém no colégio, agora tá aí querendo fazer música estranha' (risos).”
E se suas músicas podem soar pesadas e melancólicas, apesar de já terem sido classificadas como otimistas pelo Stereomood (para espanto do próprio Isaac), ele é lúcido e positivo. Diz fazer música provavelmente porque é o que sabe fazer direito, e acredita que Florianópolis tem hoje “um dos terrenos mais frutíferos em termos de som, festas, shows, muita gente muito boa fazendo muita coisa legal – e se não temos mais público ou dinheiro, é simplesmente porque a cidada é pequena e não temos gente o suficiente para alimentar todas as ideias."
Então dá pra viver de música? De lançar disco? Sim e não. “Sei que faço mil coisas que não gostaria de fazer só para ganhar dinheiro, mas nada disso tira meu desejo profundo de ser lembrado pelas coisas que realmente acredito. Como artista, não é só o mercado que define tuas escolhas, eu senti a necessidade de gravar várias musicas que definissem a identidade de um projeto, saber o ponto onde eu acreditava que estava conseguindo contar a historia que eu desejava. Mais importante do que vender o produto-disco, acho que é importante você vender ideias, ter uma rede de fãs que admira seu trabalho. Quanto mais essa rede de fãs se amplia, mais espaço você tem para procurar onde o dinheiro está.”.
- Baixe Sanctity, do Mapuche, e seja mais um fã do Isaac: mapucheways.com
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* Débora Rosseto faz um pouco de tudo, e algumas dessas coisas você pode conferir clicando aqui.
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