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SUJEIRAS AO MAR

SUJEIRAS AO MAR


Encarou a sempre evitada espiral interna: eram erros demais, a ponto de fazê-lo desacreditar em futuros acertos


Texto e foto por Thiago Momm


No mar boiavam seus erros. De ressaca, a maré os trouxe para perto da praia. O homem olhou para eles. Precisavam realmente ser chamados assim? No ponto mais indulgente da escala, erros eram só a parte indesejável mas inevitável entre milhares de escolhas. O problema era o ponto mais implacável: erros como estragos conscientes e dispensáveis na própria vida e na alheia. 

Por que eles voltam com certas ressacas? Por que algumas pessoas se incomodam tanto ao avistá-los? Alguém não entende o que quis dizer Kiko Zambianchi ao compor “Se um dia eu pudesse ver / meu passado inteiro / e fizesse para chover / nos primeiros erros sol / meu corpo viraria sol / minha mente viraria sol / mas só chove e chove / chove e chove”?

Os erros boiavam. O homem finalmente se viu absorto. No geral nem aí. Além de sujeiras ao mar, erros poderiam ser ferrugens do casco. Uma polida eventual, eis tudo. De resto navega-se – e não se pulem os cascos durante a navegação.

Mas naquele dia, ancorado, encarou a sempre evitada espiral interna. Eram erros demais, a ponto de fazê-lo desacreditar em futuros acertos. Pior, naquele momento os acertos lhe pareceram só aquilo que tornam os erros mais melancólicos.

Parecia então fazer sentido pensar assim, em erros e acertos, e pelo jeito havia bem mais daqueles que desses. Uma praia poluída, negligenciada, há tempos sem responsável. Um casco precisando de estaleiro. O homem olhou cansado para o próprio passado. Não esteve nem remotamente perto de chorar ou se comover. Isso tudo é para sofrimento até certo ponto; sofrimento além desse ponto não tem comoção nem lágrimas, só um desapontamento inerte, um desespero brando com os limites da vida e da sua interpretação. A consciência tentando morder o próprio rabo. O conformismo que segue.

Mas viver é isso, melhor roteiro adaptado. Idiotas dos que insistem em trabalhar com melhor roteiro original. De quem mais tarde não aceita ter que abandonar pelo menos certas partes do enredo criado aos 20. O drama do homem comum: não estar preparado para o drama. Disse algo assim um escritor americano consagrado, mas o homem não lembrava qual.

Enfim. Tudo que precisava era entender que os últimos erros não justificam os próximos. E que outras marés sempre afastam os erros da vista. A esse respeito, achava sintomática uma cena que havia lido no livro Rio, de Ruy Castro. Passado o Réveillon em Copacabana, uma das maiores aglomerações do mundo, toneladas de lixo estão espalhadas na areia. Aquilo angustia. Na expectativa de organizar a vida gostamos de organizar as coisas. No universo psicológico raramente a faxina é completa, mas em Copacabana, já nas primeiras luzes naturais de primeiro de janeiro, antes das 6h, os garis ordenam o caos.

Eis que surgem também duas meninas de biquíni. A cena do eterno recomeço completa: sol, mar, limpeza, juventude, ano-novo, horizontes de novo ampliados. A esperança do poema de Mário Quintana, que cai do décimo segundo andar do ano e lá embaixo, em vez de se espatifar, aparece incólume na calçada e repete seu nome, es-pe-ran-ça.

Nem todo recomeçar é assim tão forte. Há que se separar o que é realmente querer se reerguer do que é auto-enganação, desistência escondida em blefes de vontade. De qualquer maneira todo recomeçar é preciso, suspirou o homem, sabendo que esse não era o primeiro nem seria o último suspiro do gênero. E foi lidar com a sua sujeira.

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