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TECNOLOGIA DA BOA

TECNOLOGIA DA BOA


Com Kindle Fire, Amazon arrisca tela comum mas melhora outros quesitos e garante apelo do livro digital
 



Por Thiago Momm


A caixa chegou pelo correio. Não tive paciência para o corte certo, as facadas saíram tortas. Alguns plásticos desembrulhados depois, a ironia: um daqueles sujeitos com muito orgulho da sua vida low-tech, que associam a onipresença da tecnologia às invasões bárbaras contemporâneas, segurava emocionado um livro digital.

O Kindle Fire é o mais recente dos três modelos de Kindle, da Amazon. Foi o que recebi. Incrível. Toda minha promessa de monogamia eterna em relação aos livros impressos, todo meu discurso-pró-lombada-e-cheiro-de-papel-contra-a-assepsia-da-leitura-digital ficaram subitamente parecendo coisas de um passado distante, de teimosia sem sentido.

Quem disse que metros de livro na estante não podem ter vaga para um eletrônico? Já está aí um argumento pró-Kindle. O orgulho das próprias leituras se torna mais particular, menos carteiraço intelectual diante das visitas. Do tamanho de um pocket, um Kindle Fire suporta o equivalente a mais ou menos 100 metros de romances de 300 páginas.

Na verdade, minha infidelidade começou antes da chegada do correio. Um grande amigo comprou o primeiro modelo do Kindle. A tela não tem iluminação artificial, a partir do que a leitura pede iluminação externa – natural, de abajur etc.

Isso faz com quem a tela pareça surreal, como se folhas de verdade caíssem dentro do visor. E isso iguala a leitura à do papel impresso, com os olhos nunca cansando como diante dos monitores comuns – e os braços cansando menos, dado o peso insignificante do aparelho.

O Kindle Fire, uma pena, perdeu esse diferencial. Num mundo repleto de iPads, a Amazon não quis parecer intransigente: o Fire vem com tela digital tradicional, toca vídeos e música, acessa a internet. Li um colunista inglês resmungando a respeito, questionando a proximidade da leitura de livros com a de acesso ao Facebook – duas coisas separadas por poucos toques. “É como ler no meio de uma festa”, resmungou o homem.

Felizmente, a memória é de apenas 6 GB (já uma ampliação em relação ao primeiro Kindle, de 2 GB). Resulta disso uma capacidade para 6 mil livros (ou seja, décadas bastante dedicadas à leitura) ou menos de dez filmes (ou seja, nada), deixando os amantes da tecnologia pela tecnologia inclinados a comprarem outros tablets.

Outras vantagens à parte, há duas que garantem o grande apelo do Kindle. O primeiro é a desmistificação do livro, que começa pelo seu barateamento. Há de títulos gratuitos a diversos clássicos por US$ 2 (R$ 3,60) e lançamentos na faixa de US$ 10 (R$ 18). Também ajuda a tornar o livro menos mistificado o fato de que a sua compra pode ser feita de qualquer lugar – e como ele fica disponível instantaneamente, parece algo menos distante, como um documento a ser lido a qualquer hora.

O segundo quesito é o dicionário. Ler em outra língua se torna algo bem mais acessível. No Fire, com tela sensível ao toque, o indicador por um segundo em cima de uma palavra faz aparecer caixa de texto com o seu significado. Com o tempo necessário para largar um livro e consultar o dicionário no universo do papel, pelo menos três consultas podem ser feitas no Kindle.

Sinceramente, com esse estímulo bem maior para ler em inglês e com toda a biblioteca disponível a qualquer hora, não tenho sentido a mínima vontade de me distrair navegando. Cabe aí o uso que cada um faz dos seus gadgets. 

É claro que nem por tudo isso estamos falando da oitava maravilha mundial. Nunca estamos, no caso da tecnologia. Me apeguei a um iPod Classic com capacidade para 12 mil músicas. Eu realmente usava essa capacidade, mas três anos e algumas grandes viagens depois, o bicho morreu sem aviso prévio e me deixou musicalmente órfão. Por coisas assim, já estou impondo limites no meu affair com o Kindle Fire.

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