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Parte das escolhas são sacrificáveis pelo bem coletivo, mas nossa liberdade logo entra em cheque
 



Por Leo T. Motta, com foto divulgação


“Livre pra poder sorrir, sim, livre pra poder buscar o meu lugar ao sol”. Liga não, sempre quis abrir um texto com um quote escroto de filósofo de rodoviária pra mostrar como qualquer um compõe qualquer merda e cai no status de citação foda hoje em dia.

Existe um ponto quase que utópico dentro da nossa condição humana (sic) que chamamos de liberdade. Difícil explicá-la, mas ninguém consegue deixar de entender a tal liberdade. Não fosse a liberdade que tenho para escrever, você e a pessoa que está lendo por cima do seu ombro não teriam como apreciar ou odiar o que estou dizendo. Não fosse pela sua própria liberdade, jamais teria chego arbitrariamente ao site da Naipe, ao Pirão e muito menos ao meu texto. Digo isso tudo porque, como bem sabemos, a liberdade tem limites. Um deles diz respeito à liberdade homogênea entre nós todos; a consciência de que minha liberdade termina onde começa a sua, assim como a sua só será garantida enquanto não interferir na minha. 

Se escolho ir para o Summer Soul Festival em Floripa, por exemplo, é porque tenho liberdade pra isso. Mas não posso - ou pelo menos não devo - alugar um caminhão pra dirigir entre as duas pistas, atrapalhando assim a de quem mais estiver na estrada. Enfim, imbuído de todas as minhas liberdades peguei a estrada com amigos e namorada pra ver Florence Welch rasgar os ouvidos do público com suas belas melodias, acompanhada por sua exímia - máquina - banda de apoio, The Machine. Claro que a alma music clássica ainda que contemporânea da cantora Rox também muito nos atraía e Bruno Mars levantava uma espécie de, no mínimo, curiosidade otimista.

Foi graças ao livre arbítrio individual - pra não ficar usando a palavra-chave dessa pensata à exaustão - que cada um dos dois ocupantes do carro aproveitou a parada no Beiramar Shopping para comprar suas entradas por 160 pilas, para mais tarde descobrir que na mão dos cambistas os preços flutuavam facilmente entre R$ 80 e R$ 150. É questão de liberdade cair no truque VIP de Jurerê Internacional, quando lhe oferecem uma vaga no estacionamento pelo dobro do preço, por motivos que você totalmente desconhece e não valem, na melhor das hipóteses, dez pilas. Como sou livre, escolhi tomar umas boas Itaipavas antes de entrar na fila em ziguezague que estalava a proporção de 3 mulheres por homem ou coisa do gênero.

Já lá dentro, parte de minhas escolhas passaram a ser sacrificáveis pelo bem coletivo; afinal, não dói ficar logo à frente da mesa de monitores ao invés de logo atrás. Sei conceder a qualquer um a liberdade condicional de passar pelo local onde estou parado assistindo o show. Cabe a quem passa, pela lógica, ter o bom senso de não parar imediatamente na minha frente pra curtir o show se aproveitando da minha vaga. 

Não que eu possa reivindicar tanta liberdade num espaço com boas dez pessoas por metro quadrado, mas certas questões que nos são impostas começam a colocar nossa liberdade em cheque. Acabei, eu mesmo, me colocando em sinuca: livre que sou, relatei isso tudo pra reclamar de algo que aconteceu, mas agora me sinto sem jeito de ter dedicado uma pauta inteira a criticar o trabalho de alguém. Mas, pensando bem, a crítica não é exatamente ao trabalho da pessoa, é ao gestor que deu a sugestão de colocar uma meia dúzia de funcionários com bandejas pra vender chicletes e cigarros em meio ao público.

O tiozinho transeunte do isopor que vende meio litro de água a R$ 8 e a lata de cerveja a R$ 10 passa eventualmente entrecortando os poucos caminhos meio ao público, mas até aí tudo bem. Sede mata, de fato, e o isopor costuma ficar em cima da cabeça, sem comprometer o já limitado espaço para se curtir o show. O que me deixa fulo (pra não dizer full house, ou puto da cara mesmo) é quando resolvem que as pessoas merecem chicletinho e isso é prioridade. Quando a organização resolve, por bem, comprometer a experiência musical de quem pagou caro pra estar ali em detrimento de um ou outro preguiçoso que “precisa” comprar uma carteira de cigarro a R$ 10 e não pode esperar o show terminar pra isso. 

Num mundo ideal, a prioridade dentro de um evento musical seria a do público pagante, que viabiliza a realização dos shows; isso sem entrar no mérito das cotas de patrocinador, imprensa, camarotes blasé e tudo o mais. Devia ser passível de punição enfiar um funcionário nessa massa humana, portando uma bandeja que o faz ocupar quase 1m², em favor do capitalismo superfaturado e da comodidade de alguns poucos. Sacrificar a qualidade da experiência musical para a grande maioria visando 140% de lucro sobre a venda de cigarros e guloseimas não é boa ideia em ocasião nenhuma.

Comentários  

 
+1 #3 Everson 08-02-2012 09:31
Na verdade, "Difícil explicá-la, mas ninguém consegue deixar de entender a tal liberdade" é uma paráfrase da Cecília Meirelles (e, IIRC, já é uma citação parafraseada de forma poética de um texto do Mills).
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+1 #2 Léo T. Motta 07-02-2012 14:46
Pois é, fiquei sabendo depois desse esquema. Entramos por onde a puliça indicou e as opções eram estacionamento comum (R$40) ou VIP (R$80) - não sei se os bolsões estavam inativos ou eles providencialmen te esqueceram de avisar sobre..

Em tempo: a citação "Difícil explicá-la, mas ninguém consegue deixar de entender a tal liberdade" é de autoria de Julio Cesar Mendonça e consta na música Respiração, que está por vir no álbum Luaria da Casa de Orates.
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+1 #1 Thiago 07-02-2012 14:10
Ô, rapá

Não usasse os bolsões de estacionamento a R$ 10? Realmente estão funcionando, um esquema notável. Agora nossos carros já podem ir ao show sem pagarem tanto - por enquanto, pelo menos, eles ainda não parecem se importar se ficam com as rodas em alas VIPs ou não, hehe.
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