Até médicos receitam sessões de fotos para mulheres em busca de auto-estimas perdidas
Por Rosielle Machado, com fotos da Nuebelle
A fronteira entre o sensual e o vem-cá-meu-nêgo é tênue, mas encontra-se o eixo do bom gosto. Vencidos os ciúmes masculinos, mulheres encolhem a barriga, respiram fundo e encaram desconhecidos com lentes apontadas para suas intimidades. Amanda*, 26 anos, encolheu, respirou, encarou, pagou e entregou o resultado para o namorado. Que certamente não foi o único a ganhar esse tipo de presente. Corre pela boca de fotógrafos que orçamentos do gênero só perdem para os de festinhas infantis e casamentos. O serviço custa algo entre R$ 400 e R$ 5000, dependendo do número de fotos, locação, produção e acabamento do material – que pode render de álbuns simples a revistas frufruzentas.
Apesar da tentadora ideia de uma Playboy personalizada, Amanda decidiu pelo álbum. “Tive a ideia quando vi o de uma amiga. Depois que eu fiz, outras também se inspiraram”, conta ela, que leva jeito pra coisa. “Comecei envergonhada, mas no final já tava tomando cafezinho de calcinha e sutiã.”
Ela achou a experiência incrível, glamourosa, sublime. Pena que dá dor nas costas. “Cansa bastante manter a postura e ficar parada, ainda mais dando aquela encolhidinha na barriga”. Suas fotos ficaram mais para insinuantes que escancaradas, aquele mostra-não-mostra maroto e funcional: “Deu um gás na relação”, sorri.
Sem girafas
Fica a gosto da freguesa escolher algo menos ou mais explícito, explica o fotógrafo Guilherme Mattos, dono de estúdio próprio. Ele recomenda dosar a sensualidade na base do conta-gotas. Também alerta, com voz de pai preocupado, sobre a importância de cuidar com o que se mostra e para quem. “Às vezes a cliente é um pouco bobinha.”
Para evitar o vulgar a Nuebelle, empresa especializada, tem uma regra: nada de oncinhas, zebrinhas, girafinhas ou outros animais. As roupas e langeries são simples, brancas, imaculadas. O conceito dos ensaios é romântico, mas as fotografadas não resistem a tirar tudo. “Elas são tímidas no começo, mas vão descontraindo e logo já estão pedindo pra ficar sem roupa”, conta a fotógrafa da Nuebelle Graciela Lindner. “O seio a gente mostra, mas o seio é algo bonito, né? A parte de baixo não aparece diretamente.”
Depois de mais de 50 ensaios, Guilherme arrisca teorias sobre a psicologia das retratadas: “Apesar de muitas fazerem para presentear homens, a maior parte se despe e se veste pra ela mesma”. A relação entre psicologia e ensaios sensuais não se limita às reflexões dos fotógrafos. Existem médicos por aí receitando sessões de fotos para pessoas em busca de auto-estimas perdidas. “Agora imagina se eu deixo aparecer uma celulite numa mulher dessas.”
*O nome de Amanda, claro, não é Amanda
Esta matéria foi publicada originalmente na Naipe 4. A revista, que circula em Florianópolis, Balneário Camboriú e Itajaí, também pode ser lida online. Clique aqui
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