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O QUE DIZEM OS KOXIXOS

O QUE DIZEM OS KOXIXOS


De barraca pós-praia a cenário de Velozes e Furiosos mané, famoso bolsão da ilha é cada dia mais maldito




Por Jerônimo Rubim, com fotos de Bruno Ropelato


A ilha tinha trânsito em geral fluido e menos de 200 mil habitantes quando a jornalista Maristela Amorim parava na barraquinha de lanches do Koxixos para comer um queijo quente, depois de um domingo de praia. Eram os anos 80. Surfistas e cocotas, corredores de kart, motociclistas e turmas sem bandeiras curtiam rock no rádio dos carros. A maioria era filho de funcionários públicos, não havia uma clara distinção de classes sociais. A vista era perfeita para bitocas noturnas.

Na metade dos anos 90, a classe média de 16 a 30 anos da Grande Florianópolis cantava pneu por lá. Jean Carlos da Silva, que prefere ser chamado de “Jean da Box” (por causa da sua loja de motos), ia todos os finais de semana pela bagunça mas principalmente pelas meninas. Ao som alto, muito alto de Ace of Base, Só Pra Contrariar ou um batidão qualquer, ele e os amigos desfilavam seus Pioneers de 400 watts e Kadets ano 93 rebaixados e lustrados com cera Grand Prix. Era o point playboy da cidade para esquentas, rachas, bebedeiras e coisas como cartões de crédito pulando nos subwoofers, uma versão mané de Velozes e Furiosos. Era também o lugar preferido para o malho pós-night. 

Gustavo Dainez, que nunca empinou de moto só porque não tinha o dom, lembra de muitas noites com tantos carros em que ninguém conseguia entrar ou sair do estacionamento. Entre 2002 e 2008 foi assíduo devoto da bagunça, uma noite barata para ele e seus amigos do continente. A moda era competir tentando “abafar” o som dos outros carros. Ele chegou a gastar R$ 3 mil em equipamento, mas nunca chegou perto dos R$ 20 mil ou mais que alguns sacrificaram nos seus Corsas. Bebia-se bastante, manobrava-se muito e apenas uns ou outros fumavam maconha, pelo que ele notou. Piriguetes dançavam até o chão ao som de funk.

A Praça República da Grécia*, aquele bolsão de estacionamento da Beira-Mar Norte que abriga o já lendário bar do Koxixos, sempre foi uma referência, um centro de agito, diversão e perdição na cidade. Também sempre flanaram por ali torcedores de futebol, bebedores de Gatorade, gays na Parada da Diversidade, famílias no Réveillon, amigos no happy hour. Jornais estimam que 10 mil pessoas comemoraram a subida do Avaí à série A em 2008 buzinando e enchendo a cara por lá.

Mas hoje o lugar não diz nada a Maristela Amorim. Jean da Box não iria lá nem se tivesse 18 anos de novo. Gustavo Dainez tem certeza de que só há malacos vestindo calça Cyclone, boné de aba reta e querendo problemas. Casqueira, morredouro, queimaceira, perigoso e lugar de favelado são os adjetivos escarrados nas conversas com diversas pessoas sobre o Koxixos. Como um lugar público visitado por milhares de pessoas, encravado numa das áreas mais nobres da cidade e com uma vista privilegiada adquire tamanha feiúra moral?


Mau hálito

O volume do som é um problema desde os anos 90. A emergência da polícia já recebeu 80 reclamações em uma noite por causa da soma de watts esgoelados no estacionamento. Alguns dizem que dá para ouvir os graves no Estreito, do outro lado da baía. Essa empolgação, muitas vezes extrapolando as 22h, criou uma imagem baderneira. “Não tem lugar específico na cidade pra galera que curte colocar som alto e bagunçar, seria mais saudável [ter]. Rola bastante preconceito com quem gosta de som [na ilha]”, reclama Gustavo.

Hoje a polícia controla fortemente os decibéis da região, fazendo rondas, autuações e  apreensões constantemente. O Tenente Coronel Gomes Araújo – comandante do 4º BPM da capital e responsável pelo policiamento militar da área central de Florianópolis – concorda com Gustavo: “Realmente falta um espaço próprio para esse tipo de diversão. E às vezes, mesmo quando são respeitados os horários, há um pouco de intolerância.” 

Mas o maior algoz da imagem do Koxixos foi a onda de roubos, assaltos e sequestros relâmpagos na região a partir dos anos 2000. Criou-se uma fama terrível, e a maioria das pessoas que frequentava o lugar passou a evitá-lo – principalmente à noite. Há pouco tempo, depois de muita reclamação de moradores locais, as rondas foram intensificadas e hoje há poucos registros de ocorrências na área, segundo a Polícia Militar. Mas esses poucos casos são contundentes: na comemoração da vitória do Avaí sobre o Figueirense no final de agosto, um homem foi morto a tiros e outro gravemente ferido. Há planos de instalação de câmeras de segurança na avenida.

Assim, o mau hálito do lugar continua a aumentar. “A Beira-Mar Norte é um desses lugares sobre o qual a percepção pública é amplificada e desproporcional. Uma mesma ocorrência no Rio Tavares e no Koxixos vão ser percebidas de modos diferentes”, explica o Coronel Gomes. “O medo em áreas assim é resiliente.”

Com esse alarme de perigo soando alto, o espaço se abre cada vez mais a outros públicos e à criminalidade. Cria-se uma espiral de medo e o lugar se torna, inevitavelmente, uma boca maldita. É um processo cruel. A Naipe ficou por duas horas no Koxixos numa sexta-feira à noite, circulou entre o funk e os manos com correntes no pescoço – e em nenhum momento se sentiu ameaçada. Tampouco tentada a voltar.

A segurança pública não acompanha a urbanização velocidade 5 de Florianópolis. Com o crescimento exponencial da população, a cidade ficou muito mais insegura – e é sempre mais racional pagar R$ 20 na entrada de um barzinho fechado. As pessoas são empurradas para espaços fechados, e os públicos são cada vez menos cogitados.

Imbróglio

Policiamento ostensivo não é a saída para tudo. O próprio Coronel Gomes lembra isso, e diz que é preciso criar propostas culturais que mudem a imagem do lugar e gerem dinâmica social. Um projeto desenvolvido pelo Departamento de Arquitetura da UFSC em parceria com o Fórum Criatividade e Imagem da Cidade tem esse viés. Sonha revitalizar toda a orla a partir do meio da Beira-Mar Norte até o CIC com um grande boulevard. 

A península ao lado do Koxixos, a Ponta do Coral, passa por um grande imbróglio legal – a permissão ou não da construção de um hotel na área, o que grande parte da população é contra. Não havendo a construção o espaço poderia ser, em projeto chefiado pelo arquiteto e urbanista César Floriano, ideal para apresentações ao ar livre, feiras, eventos, teatro, concha acústica, praça de alimentação, centro de informações turísticas e restaurantes em uma grande parceria do setor público com o privado.

O Koxixos ficaria como apoio e sem a parte do estacionamento em frente ao bar, o que ampliaria o espaço de mesas e de descanso. Um grande deque junto às pedras criaria uma relação mais direta com a borda d’água. “A segurança se dá pelo uso, e se a Ponta do Coral virasse uma praça pública toda essa área seria ativada intensamente”, avalia Floriano.

Por enquanto, o Koxixos perde força como referência em Florianópolis. Maristela Amorim traduz um sentimento corrente do que o espaço representa hoje: “Pra mim, é só um vão pra quem quer furar a fila do semáforo.

_____

* A Praça República da Grécia, o bolsão de estacionamento na Beira-Mar Norte que abriga o Koxixos Beer, é popularmente conhecida pelo nome do bar. Na matéria, a Naipe se dá a liberdade de chamar de Koxixos toda a área pública do estacionamento – sem qualquer relação com o estabelecimento comercial.

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Comentários  

 
0 #51 reinaldo anderson 2 17-11-2011 23:59
continuando...... Eu frequento o koxixos aos sabados e sempre vejo o Major da Pm, a qual nao citarei o nome por consideração..sentado com seus amigos do clube de motos....e me sinto seguro lá..então sugiro que reflitam ao agredir o local ou o estabelecimento com xingamentos e falsas opniões, pois assim voces não compartilham do senso de injustiça que tanto primamos em nossa sociedade que acabe!
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0 #50 reinaldo anderson 17-11-2011 23:59
Ei Daniela Estevam....gostaria de prezar pela sua segurança, e lhe advertir de mais alguns lugares que você nao deve ir: Macdonals (lá da sequesto relampago) Floripa Music Hall (tiroteio) P12 (deu tiro na saida do revellion) El divino (overdose de drogas ocasionada por algo colocado na bebida de uma menina), Passarela do samba (tioroteio) Vecchio Giorgio (espancamento) Lagoa, em geral (meu carro ja foi arrombado 4 vezes), Terminal de onibus de floripa...aff....enfim ....acho melhor voce mudar de cidade ou ficar trancada em casa mesmo...REFLITA...nao é apenas a área que está em desapreço com a segurança pública, a segurança pública está sopfrendo um desapreço perante à sociedade, poois simples,mente nao nos sentimos seguros em mais nenhum lugar.
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-1 #49 Daniela Estevam 03-11-2011 13:33
Quando alguém fala: "Vamos no Koxixos?" a minha resposta é imediata: "Não! lá tem tiroteio e as pessoas morrem!"
Pode ser exagerado, mas só expressa o meu senso de segurança em relação aquela área da Beira Mar. Uma pena que um excelente local esteja tão desvalorizado perante a prefeitura e a segurança pública.
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+2 #48 Anderson Torelli 2 01-10-2011 03:44
continuação... O que eu quero dizer é que TODA a cidade sofre com a falta de prestação de serviços públicos adequados, ou seja, a população da cidade está crescendo desde a década de 90 de modo assustador e onde estão as novas escolas, instituições policiais, saneamento básico e hospitais públicos “dignos” para atender a sociedade? Afinal, será mesmo um bar capaz de causar tanta “feiúra moral”?Ou será que essa “feiúra moral”, leia-se “morredouro, lugar de favelado, de som alto e perigoso” é reflexo da ausência de um controle e cuidado público mais eficiênte e efetivo? Essa “feiúra moral” descrita na matéria – de forma preconceituosa em minha opinião - é vivenciada por todos nós e não apenas pelo Koxixos, seus clientes e todos aqueles que freqüentam aquele estacionamento ou bolsão público "abandonado" pelo Estado! Infelizmente quem vivencia essa “feiúra moral” somos todos nós que vivemos em Florianópolis.
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0 #47 Anderson Torelli 01-10-2011 03:43
É incrível a comparação cronológica feita pela matéria da Nype sem levar em consideração o fato de que a cidade de Florianópolis sofreu e sofre um inchaço incrível em sua população. Considando o início dos anos 80 até os dias de hoje, pode-se dizer que a cidades teve um aumento de no mínimo o dobro - e quem sabe o triplo – da sua população...A Lagoa da Conceição,o bairro Trindade, Santa Monica, Beira Mar, todo a área central, continental e também as "favelas" sofreram e sofrem com esse acelerado crescimento -SEM DESENVOLVIMENTO - urbano.
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0 #46 Anônimo 30-09-2011 12:30
Realmente só tem GAY e Drogado naquela *****, deveria 'demolir' tudo, breve isto vai acontecer, graças a deus.
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-2 #45 Ana Carolina 26-09-2011 07:30
Curioso.

Já vi a Naipe ironizar indies, patricinhas, intelectuais e até a si própria. A única menção desse texto que não está na boca de ninguém, mas na da própria reportagem, é "A Naipe ficou por duas horas no Koxixos numa sexta-feira à noite, circulou entre o funk e os manos com correntes no pescoço – e em nenhum momento se sentiu ameaçada. Tampouco tentada a voltar."

Talvez não seja a declaração mais feliz do mundo, mas é direta, sincera e está na boca de todo mundo. Só se pode criticar o de sempre?
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0 #44 Naipe 26-09-2011 07:00
Diegos

O advogado de um certo estabelecimento telefonou para os editores com ameaças, tentando vetar a prática do jornalismo - e nunca comentários tão exaltados contra a redação apareceram. Mas tudo bem, sigamos em frente. Já explicamos nosso ponto de vista em comentários abaixo, já oferecemos espaço no nosso site ao advogado em questão - e ele não quis. Não vale insistir nisso.

E por favor, não entre em ofensas pessoais. Tudo que há no "Quem faz" são biografias de gente que rala. Acusar-nos a partir do que há ali é cruzar a linha do bom senso e prejudicar a democracia do debate - todos os comentários, inclusive sem sobrenomes ou sem nomes aparentemente reais, são aprovados na íntegra.

Att.
Naipe
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-2 #43 Diegos 24-09-2011 17:40
(cont.)

Exemplo?
Um economista pode tornar-se um jornalista, mas o inverso, não.
Um cientista social (bacharel em ciências sociais) pode tornar-se um jornalista, mas, COMO CONSTAMOS NESTE TEXTO, o inverso não pode acontecer, posto que escrevem bobagens terríveis, preconceituosas .

Em suma, se eles perturbam com o som alto, chame a polícia e evoque a legislação acerca disso, isso realmente é errado. Se eles ferem o seu senso estético, lembre que o seu também pode ser vulgar/latino para um francês, um austríaco, um russo. É uma questão apenas cultural... apenas.

Vamos brincar de preconceito social? Releiam as descrições de vocês em >>http://www.revistanaipe.com.br/a-naipe/quem-faz
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0 #42 Diegos 24-09-2011 17:39
Uow!

A NAIPE sempre acerta em vária sacadas, mas, infelizmente, essa vez vocês foram extremamente INFELIZES nas colocações.

O texto expressa um PRECONCEITO SOCIAL TERRÍVEL!

Qualquer pessoa com discernimento social mínimo é capaz de identificar isso. Não precisa ser um Geógrafo, um Urbanista, um Sociólogo, um Administrador Público para "sacar" que a cidade, enquanto produto da sociedade, é construída por todos. Nisso, os espaços públicos são de direito da coletividade, e isso é inquestionável.

Vocês estão incitando praticamente um APARTHEID SOCIAL. E o que é pior: enquanto jornalistas (formados para tanto ou não), são cientistas sociais "aplicados".

Olha, na boa, não é à toa que é o STF posicionou-se favorável ao fato de não ser necessário diploma de jornalismo para o exercício da profissão.
Vejo que esses cursos, na forma como são concebidos hoje, formam apenas "sacos", "sacos vazios", "ocos".
(cont.)
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