Autor de Escuta só se pergunta por que gênero clássico é ignorado mesmo por apegados à música

Por Rosielle Machado
Você conhece o tipo: cita a filmografia completa de Hitchcock, acha Tarantino um pouco overrated. Literatura? Nada como um romance russo, a geração beat decorada de trás pra frente, clássicos franceses. Na música, de Beatles a grunge polonês dos anos 1990.
Música erudita? “Ah, conheço a quinta sinfonia de Beethoven – ou seria a sexta? É aquela que começa com tantantantan.”
Eis aí um “não frequentador culturalmente consciente”. É assim que no livro Escuta só – do clássico ao pop o crítico de música Alex Ross define esse fenômeno: pessoas que acompanham outras artes, leem romances, assistem filmes, conhecem bandas, mas quase se vangloriam em dizer: “Conheço muito pouco de Beethoven.”
É quase regra: se a pessoa não teve contato com esse tipo de música no ambiente familiar ou escolar, raramente vai se interessar, aos 20 anos de idade, em fazer download de Mozart. É o caso do produtor e assessor da Trupe Sonora Casa de Orates, Léo Motta. Versado em música, ele é fã de Metallica, Animal Collective, Pink Floyd, Artic Monkeys. De erudito, numa escala de zero a dez diz que domina 2,2: algo de Vivaldi, Bach e Beethoven. Moonlight Sonata ele até reconhece – mas não sabe de quem é. Não porque tenha ojeriza nem nada assim. A música erudita só nunca fez parte da sua vida.
Para entender melhor do gênero, Léo acredita que seria necessário se dedicar, ouvir, estudar. Algo que ele não pretende. “Absolutamente não. Entendo que quanto mais se conhece o passado mais longe se pode ir numa análise do futuro, mas acho que não há tempo para se estudar uma música tão longe dos nossos formatos.”
E a música erudita fica lá, feito uma velhinha vendendo flores no sinal. Para o músico e DJ Isaac Varzim, é essa a imagem quando ele pensa no quão desprezado o clássico parece se comparado ao pop inflado pela mídia. Isaac estudou música erudita na Escola de Música e Belas Artes do Paraná por quatro anos, é apaixonado por ela, mas consente:
“Ela foi naturalmente se fechando em circuitos acadêmicos e se prendendo a salas de concerto”. E avalia: “Quando se fala em popularização, levam alunos de escola pública para um teatro, ensinando que só se deve aplaudir no final da apresentação. Isso populariza tanto quanto o Festival de Dança de Joinville, ou seja, nada.”
Na opinião do professor de Música da Udesc Marcos Holler, o erudito é capaz de atingir qualquer tipo de ouvinte: “Obviamente existem obras altamente conceituais ou complexas, que demandam algum conhecimento prévio, mas isso não se aplica a todo o repertório.”
Em Escuta só, Alex Ross procura atenuar a fronteira que separa o pop do clássico. A começar pela nomenclatura: em um dos ensaios, ele defende que termos como “música clássica” ou “erudita” aprisionam uma arte viva num parque temático do passado. E suspira: “Eu sempre quis falar de música clássica como se fosse popular e de música popular como se fosse clássica.”
E o caminho contrário? Radiohead pode incentivar alguém a ouvir Stravinsky? Quem sabe.
Para Isaac Varzim, esta distância entre o popular e o clássico pode ser bem curta: “As harmonias que Bach desenvolveu lá em 1700 e poucos são as mesmas que o Luan Santana usa até hoje. A música sempre foi uma só. O cara que come um Big Mac não sabe nada sobre a criação das vacas que deram origem ao hambúrguer, mas mesmo assim é a origem da vaca que vai definir o sabor do sanduíche. Na música é a mesma coisa.”
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Na opinião do professor de Música da Udesc Marcos Holler, o erudito é capaz de atingir qualquer tipo de ouvinte: “Obviamente existem obras altamente conceituais ou complexas, que demandam algum conhecimento prévio, mas isso não se aplica a todo o repertório.”
Em Escuta só, Alex Ross procura atenuar a fronteira que separa o pop do clássico. A começar pela nomenclatura: em um dos ensaios, ele defende que termos como “música clássica” ou “erudita” aprisionam uma arte viva num parque temático do passado. E suspira: “Eu sempre quis falar de música clássica como se fosse popular e de música popular como se fosse clássica.”
E o caminho contrário? Radiohead pode incentivar alguém a ouvir Stravinsky? Quem sabe.
Para Isaac Varzim, esta distância entre o popular e o clássico pode ser bem curta: “As harmonias que Bach desenvolveu lá em 1700 e poucos são as mesmas que o Luan Santana usa até hoje. A música sempre foi uma só. O cara que come um Big Mac não sabe nada sobre a criação das vacas que deram origem ao hambúrguer, mas mesmo assim é a origem da vaca que vai definir o sabor do sanduíche. Na música é a mesma coisa.”
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Para conhecer melhor a origem da vaca:
Clássicos eruditos para audição e download.
Metropolitan Opera em streams gratuitos.
Guia ilustrado Zahar de música clássica (Editora Zahar, 512 p. R$ 79,90).
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Escuta só - do clássico ao pop
Alex Ross
Companhia das Letras, 398 páginas, R$ 49,50 (na Saraiva online, R$ 39,60)
DE OUVIDOS ABERTOS
Escuta só é para ser lido de ouvidos abertos. De Bach a Björk, da música chinesa aos Beatles, de Brahms a Bob Dylan, o livro propõe um percurso pela música pop e clássica em 19 ensaios do crítico de música da New Yorker, Alex Ross. Com uma linguagem (até que) acessível o autor explica Mozart, Beethoven, Verdi e Schubert, ao mesmo tempo em que trata de Frank Sinatra, Kurt Cobain e Radiohead. Ross se recusa a aceitar que o erudito e o pop possuem uma fronteira instransponível, e que um acalmaria a mente enquanto o outro abrandaria a alma. Segundo defende o crítico em um dos ensaios do livro, “depende da mente de quem e da alma de quem” (Rosielle Machado).
Clássicos eruditos para audição e download.
Metropolitan Opera em streams gratuitos.
Guia ilustrado Zahar de música clássica (Editora Zahar, 512 p. R$ 79,90).
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Escuta só - do clássico ao popAlex Ross
Companhia das Letras, 398 páginas, R$ 49,50 (na Saraiva online, R$ 39,60)
DE OUVIDOS ABERTOS
Escuta só é para ser lido de ouvidos abertos. De Bach a Björk, da música chinesa aos Beatles, de Brahms a Bob Dylan, o livro propõe um percurso pela música pop e clássica em 19 ensaios do crítico de música da New Yorker, Alex Ross. Com uma linguagem (até que) acessível o autor explica Mozart, Beethoven, Verdi e Schubert, ao mesmo tempo em que trata de Frank Sinatra, Kurt Cobain e Radiohead. Ross se recusa a aceitar que o erudito e o pop possuem uma fronteira instransponível, e que um acalmaria a mente enquanto o outro abrandaria a alma. Segundo defende o crítico em um dos ensaios do livro, “depende da mente de quem e da alma de quem” (Rosielle Machado).
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Comentários
Eu comecei a ouvir música clássica na minha adolescência e por alguns anos fui viciado, só ouvia isto. Hoje já voltei a ouvir música popular, mas quando estou com disposição para largar tudo que estou fazendo e me dedicar apenas à audição de uma obra, ainda recorro às sinfonias de Mahler, os quartetos de Beethoven ou as óperas de Wagner.
Mas já não tenho mais tanta paciência e geralmente um Frank Zappa já resolve...
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