Em diário, estagiária do funcionalismo público que prefere não se identificar fala de ideias e equipamentos envelhecidos
Por Anônima
04/07/11
Cheguei por volta das 7h15, é meu primeiro dia depois das férias. Um colega estava sentado no lugar habitual; as divisórias da sala tinham sido ajustadas e ela ficou menor; há datas no mural indicando aniversários; meu monitor foi trocado, mas o computador continuava lento, o mouse desgovernado, o teclado empoeirado; a mesa que antes ninguém ocupava continua vazia, mas agora tem um computador – que não funciona – em cima dela, como que para enfeitar. Tentei ficar por dentro das novidades e percebi que nada mudou. No pequeno quadro de avisos havia uma data qualquer, equivocada. Descobri isso conferindo na internet. Ah, fiz uma nota bacana e depois descobri que o ‘pessoal do gabinete’ não tem um bom relacionamento com o órgão do qual eu falava: trabalho desperdiçado. Hoje não vi nem falei com a minha chefe.
06/07/11
Desde ontem, três assuntos estampam um quadro e pautas inaugurado durante as minhas férias. Escolhi um deles e fiz alguns contatos. Liguei para mais de seis números até conseguir marcar uma reunião, só para a próxima semana. Atendemos uma solicitação hoje que deve empacar, simplesmente porque não há resposta, como em muitos casos. Perguntei para um colega o que poderia ser feito. “Escreve no papelzinho e empurra pro gabinetinho”, ele me disse.
07/07/11
Me dei ao luxo de ficar mais dez minutos debaixo das cobertas. Cheguei atrasada, mas é costume por aqui não cumprir horários. Pelo contrário, são exceções. Fiquei por duas horas lendo jornal e vendo TV, não porque não tinha nada pra fazer, mas porque a moleza reina. O ritmo deveria ser parecido com o de uma redação de jornal, mas não chega nem perto disso. Não acho justo que apenas uma pessoa de seis faça o trabalho pelo grupo todo. Prefiro não interferir com a minha opinião, comentários maldosos sobre meus colegas e até sobre a minha chefe. E fico imaginando o que falam de mim depois que eu vou embora.
18/07/11
Mesmo tendo chegado de viagem de madrugada, com uma crise de rinite que me deixa muitas vezes sem respirar, cumpri minha obrigação com o trabalho. Levantei mais tarde, chovia, peguei um ônibus lotado com as janelas fechadas, o trânsito congestionado, mas cheguei a tempo de cumprir um compromisso. Só que levei um bolo do setor de transportes porque, mesmo tendo enviado solicitação com antecedência, não tinha carro pra me levar!
20/07/11
Parece mentira. Após ter ficado fora um dia sem ninguém ter notado minha ausência, chego e não posso trabalhar. Primeiro porque mais uma vez não tem carro pra me deslocar até o local onde eu faria uma entrevista, segundo porque o telefone ficou mudo. A matéria, que comecei há mais de uma semana, vai continuar esperando por um desfecho.
21/07/11
Ocorre aqui uma disputa a fim de saber quem manda mais. Recém-chegados cheios de razão versus servidores antigos que não querem dar o braço a torcer, muito menos tomar a iniciativa para reverter a situação. Não se pode falar mais claramente do assunto, porque tudo se passa de um jeito obscuro. Há um tempo eu fazia questão de esbravejar, hoje não emito opiniões.
22/07/11
Quando é de interesse pessoal, as coisas andam rápido, e como! Ontem preparei um documento para fazer um curso de capacitação custeado pela secretaria em Brasília, que precisaria ser assinado pela minha chefe. Ela não só assinou como pediu pra incluir o nome dela pra fazer o curso comigo. Se faltasse interesse, o papel rolaria na mesa dela pelo menos uma semana, tenho certeza – como aconteceu com a solicitação de alguns colegas para fazer hora extra e receber gratificações. É meio-dia, todos assistem ao jornal antes de ir pra casa.
Final de julho
“Caminhando e cantando e seguindo a canção / somos todos iguais, braços dados ou não”. A música de Vandré certamente não foi escrita com o mesmo propósito para o qual uso agora. Mas se aproxima muito da tradução que eu gostaria de dar ao serviço que presto, ou tento prestar. No serviço público apenas seguimos a canção, que já está musicada, letrada e arranjada desde quando começamos.
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Comentários
Isso porque a imagem era meramente alusiva, e não havia sido feita no mesmo local em que trabalha a estagiária que escreveu o diário.
Mas há leitor insistindo em "punição aos envolvidos" (comentário #14), uma injustiça sem-fim: não estamos falando dos funcionários com saúde que não estavam trabalhando na Assembleia; estamos falando de um ambiente de trabalho como inúmeros outros, menos ativo e objetivo do que poderia ser.
E deveria ser punida a estagiária que apenas comentou sobre o seu ambiente de trabalho para uma colaboração jornalística? Ou o fotógrafo que estava, de novo, apenas fazendo uma foto alusiva?
É compreensível que textos assim não possam ser feitos com tudo às claras. A intenção é gerar debate, e não escolher um lugar específico como bode expiatório - isso porque não estamos falando de um escândalo, de câmeras escondidas revelando entregas escusas de dinheiro. Estamos falando de mudanças de hábitos, e não casos passíveis de séria punição (quanto mais localizada e injusta).
Redação Naipe
Sempre há a possibilidade de repressão. Concordo.
Mas meu questionamente veio justamente porque coloquei em xeque a veracidade do "diário da estagiária".
Será que esse "diário" e essa repartição pública funcionam assim mesmo? Será que os dois funcionários que aparecem TRABALHANDO na foto concordam com "essa estagiária"?
Entendo que a imagem foi colocada para impacto, mas interpreto ela como desrespeito aos servidores públicos. Além disso, desrespeito aos dois homens que ali aparecem trabalhando!
sua observação foi muito pertinente. Porém, gostaria de esclarecer que mesmo trabalhando - tanto em empresas públicas como privadas - os funcionários não ficam alienados ao seu trabalho. Todos precisam de seus minutos de distração para posteiormente voltar ao seu trabalho "descansado" e render um pouco mais.
Seria pertinente perguntar, você trabalha? Pois se sim, imagino que você se veja nessa mesma situação. Ou será que você é um super-homem e trabalha afinco suas 6h ou 8h?!
Toda empresa, e saliento novamente que independe se ela é pública ou privada, tem os funcionários que trabalham e aqueles que fingem que trabalham. A diferença é que na empresa privada o que finge será despedido. Talvez a reflexão que se deve fazer é em relação a estabilidade dos funcionários públicos... Isso sim é algo que a sociedade deveria discutir e não simplesmente continuar com a máxima já citada!
É possível que tenha ocorrido, mas, como o texto não traz nenhum dado concreto, apenas a suposta existência de uma estagiária que não quer trabalhar e tenta jogar a culpa disso nos outros, é de se questionar a própria veracidade dos relatos.
Tempo para postar essas coisas a funcionária teve, não usou para trabalhar pq não quis, não é?;
Se não está contente, pq não procura outra coisa?;
O que acontecerá com ela? Já que assumiu não cumprir horário, assistir tv e mais;
O que acontecerá com a moça que foi fotagrafada de papo pro ar?;
E o que acontecerá com o fotografo, que este sim é estagiario, e parece ter instruido sua musa a posar para ele?
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