Leitor protesta sobre divulgação de lugares pouco conhecidos, questionando limites do jornalismo de turismo

Por Thiago Momm
Na última quinta-feira de novembro, quem resolvesse dirigir até a Praia Brava (42 km do centro de Florianópolis), deixar o carro próximo do costão direito e fazer a trilha que leva à Cachoeira do Bom Jesus experimentaria horas sem enxergar ninguém.
Quando caminhou por lá, a reportagem da Naipe viu apenas dois lagartos e ouviu outros cinco ou seis se afastando pela mata.
Florianópolis ainda tem uma boa parte intocada. Nos seus 54 e 18 km, em média, de comprimento e largura, muito pedaço de chão nunca foi pisado e outros são só bem de vez em quando. Na trilha da Gurita, na Lagoa do Peri, a Naipe esbarrou com dois trilheiros ao longo de quatro horas. Na Costa da Lagoa, foram menos de 15 pessoas avistadas.
Enfim, um solipsista ainda encontra seus espaços. Mesmo com os aproximadamente 900 mil turistas na alta temporada.
Peregrinação
Ao conhecer a campanha que a Naipe fez do seu guia, sobre ter um verão diferente, um leitor estilingou: "Parabéns ao estimular o turismo em massa aos lugares preservados e com pouca gente. Aproveitem, pois essas fotos lindas daqui a pouco não existirão mais".
A questão é mais que pertinente. Desde que trabalhei como repórter de turismo na Folha de S.Paulo descobri a dúvida crucial do ramo que é divulgar ou não secret spots.
É preciso, antes de qualquer coisa, evitar a tentação do benefício profissional. É claro que quando um jornalista compartilha seus achados está ganhando pontos com editores e boa parte dos leitores. Mas há em jogo coisas bem mais importantes o próprio umbigo. O único planeta que temos para viver, por exemplo.
Não há leis a respeito, apenas bom senso. Existe o turismo de massa e existe a possibilidade de indicar a muita gente (já escrevi para menos de mil leitores e para mais de um milhão) lugares ainda não muito descortinados. Vale lembrar que isso nem sempre é o mesmo que fazer com que todo mundo vá até lá. Em cinco anos trabalhando com jornalismo de turismo, percebi quão grande é a preguiça das pessoas mesmo com trilhas rápidas. Algumas dicas, ainda bem, só estimulam os realmente interessados no assunto, já um público mais consciente de preservações.
Mas há, sim, influências maiores. Especialmente quando envolve apenas carro. No tempo da Folha uma dona de restaurante me acusou de esvaziá-lo, na Naipe a nossa repórter Rosielle Machado causou peregrinação de meses a uma biblioteca. O problema, a partir daí, é que determinado lugar pode simplesmente não estar preparado para receber tanta gente.
É claro que o turismo de massa nos angustia. Não se trata apenas de comprometer a integridade dos lugares. As experiências vão se padronizando e os destinos perdem seu apelo. Acontece o tempo todo. Morro de S.Paulo, na Bahia, continua sendo um destino espetacular, mas para quem não gosta de tantos cotovelos e comércio, a vizinha Boipeba é muito melhor. Quem disse? O Guia 4 Rodas Brasil. Em duas décadas, Boipeba será Morro.
Sem prejuízo
Estabelecemos certos limites para o Guia Naipe de Verão 2012. A campanha que tanto incomodou o leitor brinca com a divulgação-do-inusitado-que-não-prejudica-nada-nem-ninguém. O mirante natural escondido que dá vista para Campeche, dunas e Joaquina dificilmente ganharia muitos turistas: a subida para lá é absurdamente íngreme e, de qualquer maneira, o caminho já é corriqueiro para moradores locais.
A foto que mostra uma casa noturna ilhoa é mais inócua ainda. Dissemos no texto sobre a imagem que o centro de Florianópolis tem dez, não duas baladas. Só que todas já são entupidas pelo público alternativo, não importando muito um pouco a mais ou a menos de divulgação.
A terceira foto mostra a cachoeira da Gurita, atrativo de uma trilha difícil mas já bem divulgada em sites e livros sobre trilhas.
A quarta imagem realmente mostra algo inusitado: uma pizzaria com gazebos na Caieira da Barra do Sul. O diferente se dá pelo fato de que o lugar abriu em 2011, tem um camping com cachoeira e piscinas naturais e fica em um bairro com comércio bem mais apagado. Por outro lado, muita gente passa por ali ao ir para Naufragados. Então é o tipo de indicação que um jornalista de turismo pode se permitir.
A quinta foto tem uma ideia bem interessante (ninguém na faixa de areia em primeiro plano, a orla da Balneário de 1 milhão de turistas/verão em segundo), mas o lugar está longe de ser desconhecido: é o Morro do Careca, de onde se pula de parapente, enquanto a Praia do Buraco, na imagem, pode ser acessada a partir do costão esquerdo de Balneário. A sacada foi brincar com o contraste vazio/cheio, mas para isso não divulgamos nenhum secret spot.
A Naipe segue uma política de frisar a qualidade do que já é minimamente conhecido e poderia ser mais frequentado com benefício - para o turista que quer algo menos óbvio e para o estabelecimento de qualidade que merece mais clientes (ou o lugar natural que suporta mais visitantes). Não temos a pretensão de abrir caminhos a facão. Conhecemos, por exemplo, uma gruta esquecida e um local secreto de surfe que não constarão no guia. Entre alguns outros pontos.
É claro que nem por isso só faremos divulgações bem-vindas. Tentamos sempre nos abalizar conversando com os leitores. Ontem mesmo ouvimos uma dica incrível acompanhada de um pedido maroto: "Falem do lugar no guia mas não digam onde é".
Não sobre turismo, mas sobre como os descobridores foram mapeando o planeta e incomodando tribos não-contactadas ao longo dos séculos, recomendo Os desbravadores, do historiador inglês Felipe Fernández-Armesto. Livraço. Não percam.
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Comentários
Confesso que não tenho muitas cartas assim. Essas já são das altas, haha.
Fiquei a fim de fazer um guia especial só com o que é realmente inusitado (com certeza tenho muitos lugares pra conhecer e precisaria consultar muita gente), mas no guia nossa proposta é fugir do convencional em certos trechos sem apelar para excentricidades . Você deve saber que, se consultar os amigos, vai descobrir que 96,5% nunca comeram, sei lá, no Caravana Fusion, nas Rendeiras. Então o Caravana ainda é uma dica tão boa quanto a do siri, a gente pensa.
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